POLÍTICAS PÚBLICAS
Estudo avalia perfil da distribuição de renda desde os anos 70
LUCIANA CONSTANTINO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O mercado de trabalho foi o principal responsável pela redução da
desigualdade social no Brasil entre 1995 e 2004, mesmo com a queda da
renda média do trabalhador neste período. A diminuição da diferença dos
rendimentos de pobres e ricos contribuiu com pouco mais de três quartos
da queda da desigualdade. O restante coube a programas de transferência
de renda não indexados ao salário mínimo, principalmente o
Bolsa-Família.
Essas são as principais conclusões do estudo "Distribuição de Renda no
Brasil de 1976 a 2004", recém-concluído pelo pesquisador Sergei Soares,
técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), órgão ligado ao Ministério do Planejamento.
O trabalho mostra ainda que o ano de 2004 foi o menos desigual nos
últimos 20 anos no país. Para chegar a essas conclusões, Soares utilizou
dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) desde 1976,
além de quatro tipos de medida de desigualdade, entre eles o coeficiente
de Gini, um dos mais conhecidos (leia texto nesta página).
Segundo o pesquisador, apesar de estar entre os programas que
contribuíram com um terço no resultado final da queda na desigualdade, o
Bolsa-Família teve um impacto "chave" na distribuição de renda desde que
foi criado, em outubro de 2003.
"O problema é que, para esse tipo de programa continuar funcionando,
depende de recursos. Com os impostos elevados e o Orçamento apertado,
não será fácil encontrar recursos para continuar a expansão", diz o
pesquisador técnico do Ipea.
Somente o Bolsa-Família consumiu no ano passado R$ 5,592 bilhões para
atender a 8,7 milhões de famílias cadastradas. Somados aos recursos
aplicados nos programas remanescentes -Bolsa-Escola, Bolsa-Alimentação,
Auxílio-Gás e Cartão Alimentação-, chega a R$ 6,66 bilhões.
Devido a isso, para Sergei Soares, o fato de a queda da desigualdade
social estar mais ligada ao mercado de trabalho indica que a redução
pode ser "sustentável" nos próximos anos.
Bem-estar
De acordo com o estudo, apesar de a renda média do brasileiro ter caído
quase 5% entre 1995 e 2004, houve melhoria de bem-estar da maioria da
população. Isso porque 7 em cada 10 brasileiros tiveram ganhos nos
critérios analisados pelo estudo. Mesmo os que perderam estavam entre os
que tinham maior renda.
Essa conclusão é resultado do cruzamento de dados referentes à renda
média da população com cálculos que levam em consideração a
transferência de renda de indivíduos que ganham mais para os que recebem
menos.
Se fosse usada apenas a renda média, o valor registrado em 2004 -que
ficou em R$ 391- estaria abaixo dos anos pós-Real (1995-1998), quando
ultrapassou os R$ 400, e de 1999 (veja quadro).
No entanto, ao levar em consideração as diferenças de rendimentos entre
os mais pobres e os mais ricos, constata-se que houve, respectivamente,
ganho e perda.
"A comparação de 2001 com 2004 fornece o mesmo ponto de cruzamento. Ou
seja, claramente os mais ricos perderam e os mais pobres ganharam", diz
o técnico de planejamento do Ipea.
Queda da desigualdade
Com isso, a desconcentração dos rendimentos do trabalho e o aumento de
salário mínimo foram responsáveis por 78% da queda da desigualdade. Já
os programas de transferência de renda não indexados ao salário mínimo
ficaram com 27%.
Somam 105% porque as pensões e aposentadorias não indexadas ao salário
mínimo andaram na direção contrária e se tornaram mais concentradas.
Uma das limitações do estudo é não abordar os motivos de o mercado de
trabalho ter se tornado menos desigual no período analisado (1995-2004).
Também não trata dos efeitos do salário mínimo nem das taxas de câmbio.
Sergei Soares, porém, indica dois fatores que podem ter contribuído para
isso: o aumento do número de jovens com ensino médio nos anos 90 e uma
mudança no perfil do trabalho rural.
"As regiões metropolitanas, por exemplo, estão perdendo para cidades do
interior. Há também uma recuperação da renda rural, que estamos
começando a analisar", afirma o pesquisador.
Para o autor do estudo, o investimento em educação, com melhoria da
qualidade, é um dos principais fatores que podem continuar ajudando na
redução da desigualdade.
(© Folha de S. Paulo, 05.03.2006)
Estudo agrupou dados do IBGE em 3 períodos
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O estudo "Distribuição de Renda no Brasil de 1976 a 2004" foi feito com
o objetivo de mostrar a evolução da desigualdade e apontar os fenômenos
responsáveis pela queda dessa diferença social nos últimos três anos.
Para isso, usou os chamados microdados da Pnad, considerada a mais
importante fonte anual de informações sobre a realidade social
brasileira. Feita pelo IBGE, a pesquisa coleta dados de cerca de 400 mil
pessoas em 100 mil domicílios. Em 2005, apontou uma redução da
desigualdade de renda no país ao nível mais baixo já medido pelo estudo.
O pesquisador Sergei Soares agrupou os dados da Pnad em três
períodos. De 76 a 2004; de 81 a 2004 (maior período em que a Pnad segue
esquema amostral semelhante) e de 95 a 2004, quando os anos têm maior
comparabilidade por não haver hiperinflação nem mudança na moeda.
Levou em consideração, além da renda média do brasileiro, a
decomposição de dados que medem a desigualdade social. Usou o
coeficiente de Gini e o índice de Theil. Analisou ainda as razões entre
a renda dos 40% com menor renda e os 10% com maior renda e entre os 20%
com menor renda e dos 20% com maior renda.
(© Folha de S. Paulo, 05.03.2006)
Estudo aponta para papel do Estado
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A unificação dos programas de transferência de renda do governo federal
sob o "guarda-chuva" do Bolsa-Família consolidou, no final do ano de
2003, um novo padrão de relacionamento entre os governos federal e
municipal, o que deve levar a uma discussão do papel da administração
dos Estados e sua co-responsabilidade nesse formato.
Essa é a opinião do economista José Roberto Afonso, que recentemente
publicou o estudo "Novos Desafios à Descentralização Fiscal no Brasil:
as Políticas Sociais e as de Transferência de Renda", em que trata do
tema.
Na transferência de renda, o governo federal repassa o recurso
diretamente aos beneficiados e faz o gerenciamento do programa. Nesse
caso, o governo acompanha, inclusive, as contrapartidas das famílias
-que são manter as crianças matriculadas na escola e a saúde em dia. Já
aos municípios cabe cadastrar as famílias e auxiliar na fiscalização.
Pela lei do Bolsa-Família, os Estados são responsáveis, por exemplo,
por promover ações que viabilizem a gestão intersetorial e de
articulação com gestores municipais, dando apoio técnico.
Para o economista, na prática, será necessário rediscutir a
coordenação entre os governos visando garantir ações que ajudem as
famílias beneficiadas a saírem da situação de pobreza.
"Se os programas de transferência de renda forem limitados a uma
função meramente assistencialista, os governos subnacionais continuarão
à margem do processo e ficam dispensados de uma tarefa, que é preciso
reconhecer, bastante árdua e complexa -formular e implantar medidas que
efetivamente reduzam a pobreza", escreve José Roberto Afonso, economista
que também já ocupou vaga de superintendente da área fiscal do BNDES
(Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Segundo Roberto Afonso, a saúde e a educação têm papel chave neste
trabalho de diminuição da pobreza. Elas precisam estar aliadas a ações
que levem à indução do desenvolvimento local, inclusive com programas de
qualificação profissional.
Estudo divulgado em janeiro deste ano pelo Ministério do
Desenvolvimento Social aponta que somente o governo federal ofereceu no
ano passado 150 ações de geração de trabalho e renda espalhadas em 17
ministérios, além de outras 28 ações visando o desenvolvimento local.
Aliadas aos programas de transferência de renda, essas ações
consumiram no ano passado aproximadamente R$ 62 bilhões do governo
federal. Esse valor é quase o dobro do Orçamento destinado à pasta da
Saúde, o maior da Esplanada.
(© Folha de S. Paulo, 05.03.2006)
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