Samantha Lima e Mariana Carneiro
Os milhões de brasileiros que sonham com a estabilidade do emprego
público viverão, nos próximos meses, uma intensa temporada de
concursos. Atento ao calendário eleitoral, o governo federal acelerou
as autorizações para elaboração dos editais, dando aval para
preenchimento mais de 30 mil postos somente no primeiro semestre deste
ano. Dados do Ministério do Planejamento mostram que o número
autorizado até o momento para 2006 é 155% superior ao total aberto em
igual período do ano eleitoral de 2002.
De acordo com o ministério, até janeiro já foi
autorizado o preenchimento de 19.298 vagas no primeiro semestre
somente na esfera federal. A conta não inclui as oportunidades que
serão oferecidas por bancos e empresas estatais - como a Transpetro,
com 10 mil vagas, cujas inscrições já se encerraram. Ao todo, o
governo estima que folha de pagamento crescerá em meio bilhão (R$
550,2 milhões). Em igual período de 2002, havia apenas 7.546 vagas
autorizadas para concursos ao longo do ano.
O levantamento permite, ainda, concluir que nada
menos do que 13.415 vagas (ou 72% do total liberado até agora) é
resultado de canetadas distribuídas nos três últimos meses - período
em que o presidente Luiz Inácio Lula conclamou os ministérios a
acelerar os gastos, após as evidências de que o esforço na economia de
recursos foi exagerado.
- Contratar às vésperas do fim do mandato indica
que, passado o esforço de poupança, às custas de um sacrifício dos
gastos essenciais, chegou a hora de soltar o laço e gerar empregos.
Para a sociedade, no entanto, o desejável seria repor as vagas à
medida que as deficiências se apresentam - avalia o economista Armando
Cunha, coordenador do curso de pós-graduação em Administração Pública
da Fundação Getulio Vargas (FGV-RJ), fazendo alusão ao aperto fiscal
recorde produzido pelo governo no ano passado (equivalente a 4,84% das
riquezas produzidas no país). - Provavelmente há relação entre os dois
fatos.
A coincidência do calendário eleitoral com o de
contratações denota ainda, segundo o especialista, falta de
planejamento ou mesmo oportunismo. O governo, por sua vez, alega
necessidade de adequação ao calendário eleitoral para justificar e
elevado número de vagas liberadas em tão pouco tempo. Segundo o
Ministério do Planejamento, a lei eleitoral impede a homologação de
resultados de concursos três meses antes das eleições.
Dados do Ministério do Trabalho mostram que, no ano
passado, o serviço público retomou a posição de força motriz na
geração de empregos formais do país. O número de vagas na
administração pública cresceu 5,6%, ante apenas 2,27% da indústria de
transformação e 4,1% da média geral. No ano anterior, o emprego
público avançou apenas 1,54%, ante 10% da indústria e 6,3% na média
nacional.
(© Jornal do Brasil, 05.02.2006)
Candidato passa mas não leva
Aprovados em concurso para Furnas acusam empresa de contratar
terceirizados
Samantha Lima
Nem sempre a aprovação em um concurso, à custa de horas dedicadas ao
estudo e de dinheiro gasto com material didático, cursinho e
inscrição, garante a conquista do tão sonhado emprego público. É o que
mostram milhares de candidatos que foram à Justiça para tentar
garantir sua contratação em uma seleção para Furnas Centrais
Elétricas, realizada em 2004. Os candidatos acusam a estatal de ter
recorrido à mão-de-obra terceirizada para preencher as vagas para a
qual concorreram, o que a empresa nega.
O concurso, autorizado em 2002, só foi realizado no
início de 2004. Mais de 50 mil pessoas participaram, dos quais 9 mil
foram aprovados. A seleção, porém, tinha como objetivo formar um
cadastro de reserva. Assim, as convocações seriam graduais, dentro do
prazo de validade do concurso. Segundo um grupo de aprovados, porém,
logo após a homologação do resultado do concurso, a empresa começou a
chamar terceirizados para as vagas, ignorando o cadastro de reserva.
- Informaram-nos de que as pessoas que estavam
sendo convocadas foram aprovadas no concurso. Mas tivemos acesso à
lista desses contratados e, quando procuramos esses nomes na lista de
aprovados, vimos que muitos tinham passado, mas em colocações muito
atrás da nossa. Passei entre os dez primeiros no meu cargo, mas vi que
dez já foram chamados e eu continuo fora. Essa história mostra que até
no serviço público existe apadrinhamento. Preparei-me para a prova com
meses de antecedência. Esse salário é de R$ 2,5 mil - relata um dos
concursandos.
- Esse assunto me deixou mal porque não sai da
minha cabeça. Só falo sobre isso o tempo inteiro - lamenta outro. - O
prazo do concurso expira em 27 de fevereiro e estamos todos à espera
da convocação.
O Ministério Público Federal e o Ministério Público
do Trabalho estão exigindo de Furnas a dispensa dos terceirizados e a
contratação dos concursados. O procurador federal Edson Abdon
suspendeu a divulgação dos resultados de um novo concurso realizado
por Furnas no fim de 2005.
Procurada, a estatal negou ter realizado qualquer
contratação de terceirizado desde 2002 e que ''é impossível burlar a
ordem de convocação dos aprovados, uma vez que tais informações são
públicas''. A empresa informou, ainda, que está impedida de superar o
número de 4.613 efetivos devido à legislação federal e que mais de 1,5
mil concursados de 2004 foram convocados.
- Sinto a mais absoluta frustração. Me esforcei
tanto para conquistar o emprego público, mas essa história me
desestimulou. Não tive mais ânimo para me dedicar a nenhum concurso -
desabafa um dos candidatos, que, como os demais, prefere não se
identificar por medo de represálias.
(© Jornal do Brasil, 05.02.2006)
Procura em cursos cresce 50%
Instituições preparatórias para concursos faturam R$ 100 milhões por
ano
Samantha Lima
Atentos à enxurrada de concursos que se anuncia, os candidatos
intensificam os estudos para as provas. A Academia do Concurso Público
contabiliza uma alta de 50% no número de matrículas em janeiro, ante
igual mês de 2005. A demanda, porém, segue aquecida o tempo inteiro,
com alta de 40% a cada ano.
- O que os alunos procuram, basicamente, é
estabilidade e melhores salários em relação à iniciativa privada. No
cursinho para a área fiscal, que concentra 40% dos nossos alunos,
temos até médicos e dentistas. E nos cursos para provas de nível
médio, temos muitos alunos com nível superior - diz o diretor do
curso, Fábio Gonçalves.
Apesar da elevada oferta de vagas, os candidatos
que levam a sério o projeto emprego público não se dispersam, optando
por concorrer a oportunidades afins. O engenheiro e estudante de
ciências atuariais Raphael Montello, de 26 anos, sonha com uma vaga
pública na área de seguros, no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB
Brasil-RE, R$ 2.950) ou na Superintendência de Seguros Privados
(Susep, R$ 6.000), com provas marcadas para, respectivamente, março e
abril. Para ele, a aceleração promovida pelo governo nas autorizações
dos concursos veio em boa hora.
- Tive sorte de estarem acontecendo exatamente os
dois concursos de maior interesse para mim. Mesmo que o da Susep
ofereça apenas uma vaga para nível superior aqui no Rio, vou tentar.
Se não der certo, não vou desistir. Vou aproveitar para aprimorar meus
conhecimentos e correr atrás de novos concursos. Trabalhei dois anos
na iniciativa privada, como engenheiro, mas os salários baixíssimos me
decepcionaram.
Dados da Associação Nacional de Proteção ao
Concurso Público mostram que, por ano, cinco milhões de pessoas - ou
5,4% dos 92 milhões de brasileiros que integram a População
Economicamente Ativa, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística - concorrem anualmente a uma vaga no serviço público.
Desses, 150 mil se preparam em cursinhos e 400 mil estudam em casa com
material didático. Segundo Gonçalves, que é vice-presidente da
entidade, apenas 3% efetivamente brigam por uma vaga, por terem se
preparado adequadamente. Cálculos da associação mostram que somente o
mercado de cursos preparatórios movimenta R$ 100 milhões por ano e as
empresas organizadoras, outros R$ 400 milhões.
A concorrência acirrada na iniciativa privada
assusta até mesmo quem ainda não chegou ao mercado. Com apenas 21
anos, a estudante de ciências contábeis Roberta Coutinho já se
matriculou num curso preparatório para a área fiscal - que abre
possibilidades para a Receita e para secretarias de fazenda municipais
e estaduais em todo o país, em mais de 40 concursos por ano.
- Vou para qualquer lugar do país, se eu passar.
Tem gente que trabalha a vida inteira e não ganha os R$ 7 mil que a
Receita paga a um auditor fiscal.
(© Jornal do Brasil, 05.02.2006)
Reforço dobrado
A média de vagas criadas por mês neste primeiro semestre é quase o
dobro do verificado ao longo de todo o ano passado. Enquanto em 2005
foram autorizadas 23.362 vagas, só nos primeiros seis meses de 2006,
estão autorizadas 19.298.
- O número previsto de contratações é bastante
razoável. É preciso avaliar ainda que tipo de cargos serão
preenchidos. Será que esse recrutamento poderia se dar de forma menos
rígida para funções que não necessitem estabilidade? - ressalta o
professor da FGV-SP Nelson Marconi, que ocupou a direção de carreiras
e remuneração do Ministério do Planejamento entre 1995 e 1999.
Mesmo com o universo de contratações à vista, o
inchaço da máquina pública é descartado por especialistas.
- Comparando-se a estrutura que o Brasil possui com
países como México, Chile ou Estados Unidos, estamos bastante abaixo
da média em termos de número de servidores como parcela da população -
pondera Armando Cunha. Ao todo, o governo possui 995 mil servidores
civis, número que já foi de 514 mil em 1998.
Segundo o Ministério do Planejamento, praticamente
todo o contingente de vagas previstas para 2006 já foi autorizado. Mas
haverá um residual, segundo informa, que virá da expansão do ensino
profissionalizante, que demandará professores e técnicos para 25
escolas que o governo pretende inaugurar até o fim de 2006.
O publicitário e ex-guarda municipal Alexandre de
Souza, de 27 anos, tenta uma vaga de servidor a todo o custo. Está se
preparando, atualmente, para concursos na área policial. Hoje,
participará das provas para investigador da Polícia Civil (salário de
R$ 1.490). Amanhã, começa a estudar para a prova da Transpetro, a
subsidiária de logística da Petrobras, com provas previstas para
março. Mensalmente, gasta R$ 500 entre mensalidades dos cursos e
material didático, fora o custo das inscrições.
- Também estou atento aos concursos do Tribunal de
Justiça, do TRE e do Tribunal Regional Federal. Recentemente, fiz a
prova de papiloscopista da Polícia Civil. Quero estabilidade, salário
melhor e ascensão profissional. Como não tenho QI (iniciais de Quem
Indica, sinônimo de apadrinhamento profissional), só me restam os
concursos - afirma Alexandre, que abandonou a guarda porque queria
ganhar mais.
Samantha Lima e Mariana Carneiro
(© Jornal do Brasil, 05.02.2006)
Carência afeta serviço
Para o governo, o aumento de pessoal a serviço do Estado tenderá a
solucionar uma das principais críticas dos cidadãos contra o
funcionalismo: a baixa qualidade do serviço prestado.
Para o diretor de relações do trabalho da
secretaria de recursos humanos do Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão, Vladimir Nepomuceno, ''a não reposição de
servidores em área de atendimento direto à população durante a década
de 1990 até 2002'' afetou a qualidade do serviço.
- Nesse sentido, o ingresso de novos servidores
contribuirá para minorar o problema, uma vez que tende a diminuir a
sobrecarga hoje existente - diz Nepomuceno.
Segundo informa, a maioria das vagas autorizadas
(44%) será para a subsituição de terceirizados que hoje prestam
trabalham para o Estado. A exigência por gradual substituição de
terceirizados foi feita em 2002, pelo Tribunal de Contas da União e
Ministério Público do Trabalho.
O fato de as autorizações terem se concentrado
entre novembro de 2005 e janeiro de 2006, segundo Nepomuceno, deve-se
única e exclusivamente ao calendário apertado por conta da lei
eleitoral.
- Levando-se em conta o tempo médio de realização
de um concurso, o ministério procurou autorizar os concursos com
antecedência para que os órgãos possam contar com a força de trabalho
ainda em 2006 - justifica.
(© Jornal do Brasil, 05.02.2006)
A estatal Transpetro abre 10 mil vagas em ano
eleitoral
Subsidiária da Petrobrás promove o maior
concurso público de sua história; oposição critica iniciativa
Nicola Pamplona
RIO
Subsidiária da Petrobrás para a área de
transporte de petróleo e derivados, a Transpetro promove, este ano, o
maior concurso público de sua história. São 10.012 vagas, das quais
1.537 para contratação imediata, que praticamente dobrariam o quadro de
funcionários da empresa se todos fossem convocados de uma vez. A
Transpetro tem hoje cerca de 4,7 mil empregados diretos e número
semelhante de terceirizados. Tamanho apetite por novos empregados
surpreende especialistas no setor e motiva críticas de representantes da
oposição, que enxergam razões eleitorais no processo e reclamam de
inchaço da máquina federal e das estatais.
"O governo está achando que vai resolver o problema do desemprego
criando cargos públicos, mas uma hora isso vai ter de sofrer um ajuste",
critica o deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), que enviou requerimento
ao governo pedindo informações sobre as contratações para cargos
públicos em órgãos federais e em estatais. O concurso da Transpetro é
apenas um entre os diversos processos de contratação em curso na esfera
federal, que chamam a atenção até mesmo de quem acompanha de perto o
assunto, como coordenadores de cursos preparatórios (ver reportagem
nesta página).
A Transpetro alega que pretende substituir funcionários terceirizados
e precisa de um amplo cadastro de reservas para evitar a realização de
novos concursos caso alguns dos aprovados desistam da vaga ou tenham
impedimentos legais para ocupá-las. "O cadastro é grande principalmente
em cidades onde há poucas vagas para contratação imediata, pois o risco
de ficarmos com a vaga desocupada por desistência ou qualquer outro
motivo é maior", diz o gerente de recursos humanos da Transpetro,
Orlando Orlandi. Segundo o edital, são quase seis pessoas na reserva
para cada vaga imediata.
Ele reforça que 1.537 pessoas serão chamadas para trabalhar na
empresa. O restante ficará à espera de oportunidade por um período de
dois anos renovável por mais dois. O professor Edmilson Santos, da USP,
questiona mesmo o número de contratações imediatas, que é defendido pela
empresa. "Será que mesmo 1,5 mil não é muito?", pergunta, lembrando que
a Petrobrás reduziu pela metade seu número de funcionários nos últimos
anos.
A Transpetro foi criada em 1998, a partir de uma cisão dos ativos de
transporte da Petrobrás por determinação da nova lei do petróleo,
aprovada um ano antes, que tinha o objetivo de ampliar a concorrência no
setor.
A dimensão do concurso público não é unanimidade nem mesmo dentro da
companhia. Nos bastidores, comenta-se que houve resistência de
funcionários de carreira que ocupam cargos importantes na empresa. Os
programas de recursos humanos têm de ser aprovados pela diretoria, que é
composta por três pessoas, além do presidente Sérgio Machado, ex-senador
pelo PMDB. Dois deles - Agenor Junqueira, da área de transportes
marítimos, e Marcelino Gomes, de dutos e terminais - são oriundos do
Sistema Petrobrás. O terceiro, Álvaro Gaudêncio Neto, ex-deputado que já
teve passagem pelo PFL, foi escolhido para o cargo na cota do PMDB.
JORNALISTAS
Uma análise detalhada das vagas abertas pela empresa aponta casos
curiosos. O edital do concurso prevê a contratação de 265 jornalistas e
280 assessores de imprensa, enquanto apenas 30 vagas foram abertas para
engenheiro naval, cargo ligado à atividade-fim da companhia, que opera
toda a frota de navios do Sistema Petrobrás. O gerente de recursos
humanos explica que apenas 17 jornalistas serão convocados imediatamente
para atuar em unidades espalhadas por todo o País. O restante ficará no
cadastro de reserva.
O concurso teve suas inscrições encerradas no dia 31 de janeiro,
depois de um adiamento provocado pelo excesso de candidatos, que até
agora ultrapassam 400 mil. A empresa continua a contabilizar as
inscrições feitas pelo correio, o que deve provocar um aumento no número
de candidatos.
Nada que desanime os interessados, principalmente por se tratar de um
cargo público, mais estável, diz Joice Leite, de 23 anos, que se
inscreveu para uma das 1.023 vagas de auxiliar técnico de administração
e freqüenta aulas em um curso preparatório no Rio. "Acho que dá para
conseguir uma vaga para contratação imediata", diz.