BRASIL DESIGUAL
Estudo do Cebrap mostra maior dependência de programas sociais
ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO
O processo de exclusão do mercado
de trabalho da população extremamente pobre no Brasil se intensificou de
1995 a 2004. Nesse período, o rendimento médio dos trabalhadores que se
encontram entre os 10% mais pobres caiu 39,6% ao mesmo tempo em que
aumentou a dependência dos programas sociais do governo.
Em 1995, 89% da renda dessa
população vinha do trabalho. Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou
seja, mais da metade da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não
vinha de sua atividade no mercado de trabalho.
Essas são conclusões de um estudo
do sociólogo Álvaro Comin, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento), a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios), do IBGE. O trabalho mostra que no extremo oposto, o dos 10%
mais ricos, a queda no percentual de renda do trabalho não foi tão
intensa: passou de 83% para 77%.
O estudo mostra também que,
analisada a partir de seus extremos de riqueza e pobreza, a economia
brasileira não parou de produzir desigualdade e a distância entre os 10%
mais ricos e os 10% mais pobres aumentou.
De 1995 a 2004 houve queda na
renda tanto dos 10% mais ricos quanto na dos 10% mais pobres. No extremo
da riqueza, o rendimento médio total dos trabalhadores caiu 21,9%, de R$
4.230 para R$ 3.305. No outro extremo, a queda foi ainda maior: de R$ 96
para R$ 58, variação de -39,6%.
Por causa da queda maior entre os
mais pobres, a distância entre os dois segmentos aumentou. Em 1995, era
necessário somar a renda de 44 brasileiros entre os mais pobres para
igualar a renda de um mais rico. Em 2004, essa proporção aumentou para
57.
Essa análise da desigualdade nos
extremos contrasta com a divulgada no mês passado pelo IBGE, que mostrou
que o índice de Gini (que mede a concentração de renda) vêm caindo desde
1993.
Não se trata, porém, de erro de
uma ou outra pesquisa. A explicação é que o Gini trabalha com uma média
de rendimentos onde há um peso grande no seu cálculo dos estratos
intermediários, ou seja, aqueles que não estão nos extremos mais pobres
ou mais ricos da população. Foram esses extremos o foco da leitura do
Cebrap.
Para Comin, o principal
componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram
os programas de transferência de renda. Ele afirma que eles
desempenharam um papel importante de não deixar que a renda dos mais
pobres caísse ainda mais. No entanto, foram insuficientes para alterar
de forma estrutural a dinâmica de produção de desigualdade da economia.
Dramático
A economista Lena Lavinas, da
UFRJ, ressalvando que não teve acesso ao estudo, afirma que o que os
dados do Cebrap revelam de "dramático" é o fato de a inserção mais plena
dos mais pobres no mercado de trabalho estar praticamente desaparecendo.
"O mais grave é verificar que a
renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de
governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos
complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando
uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de
ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático", diz.
A economista defende que, diante
desse quadro, é necessário repensar a estrutura do Bolsa-Família: "O
pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é
justamente essa que condiciona o benefício a um nível de rendimento
extremamente baixo.
O beneficiado não pode ter
mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da
bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo
instável?".
O economista Marcio Pochmann, da
Unicamp, vê nos dados do Cebrap a confirmação de que a economia passa
por um quadro que ele chama de "polarização social", ou seja, de
distanciamento da renda dos mais ricos em relação aos mais pobres. "Os
programas de transferência de renda são o que é possível fazer numa
economia que não cresce de forma sustentada e são compatíveis com os
programas de ajuste fiscal. Gasta-se relativamente pouco do PIB com o
Bolsa Família, mas faltam recursos para investir em escolas, hospitais e
outros serviços públicos que ajudariam de forma mais eficiente essa
população a vencer a pobreza e ingressar no mercado de trabalho", diz
Pochmann.
Para a economista Sonia Rocha, a
tendência de redução de desigualdade (medida pelo IBGE pelo índice de
Gini) ainda não é robusta. "Essa redução depende do tipo de crescimento
econômico e da oferta e demanda por mão-de-obra qualificada. Com
crescimento rápido e insuficiência de oferta de mão-de-obra qualificada,
a desigualdade de rendimentos de trabalho tende a aumentar."
(© Folha de S. Paulo, 25.12.2005)
Desigualdade diminuiu entre 2003 e 2004
DA SUCURSAL DO RIO
Apesar da tendência de aumento
da desigualdade entre extremos desde 1995, o Cebrap mostra também que de
2003 para 2004 houve inversão nesse movimento. De um ano para o outro, a
renda dos 10% mais pobres cresceu 11%, enquanto a dos 10% mais ricos
caiu 1,3%.
Analisando a série histórica
da Pnad desde 1993, percebe-se que o rendimento dos 10% mais pobres teve
grande variação de 1993 para 1995, quando a renda média passou de R$ 48
para R$ 96 (teve um crescimento de 100%).
De 1995 a 1998, esse
rendimento teve pequenas oscilações, variando entre R$ 96 e R$ 106.
Desde 1998, no entanto, ele vinha apresentando quedas sucessivas. A
maior delas ocorreu de 2002 para 2003, quando caiu de R$ 70 para R$ 52,
uma variação de 26%. Essa queda só foi interrompida de 2003 para 2004,
quando a renda subiu 11% e chegou a R$ 58.
"O efeito dos programas de
transferência de renda na contenção da queda dos mais pobres é muito
mais relevante a partir de 2003. É uma forte mudança no padrão e é
provavelmente a mudança mais destacável na inércia que marca a questão
da desigualdade da renda no Brasil em décadas", afirma Álvaro Comin.
Para ele, a recuperação da
renda de 2003 para 2004 provavelmente tem pouco a ver com um desempenho
mais favorável do mercado de trabalho, que vem apresentando crescimento
principalmente no nível de emprego formal: "Os novos empregos formais se
situam no patamar de rendimentos igual ou acima do salário mínimo,
enquanto a renda dos mais pobres está bem abaixo na maior parte do
país".
(© Folha de S. Paulo, 20.11.2005)
BRASIL DESIGUAL
Ministério do Desenvolvimento Social afirma que programa reduz
desigualdade ao aumentar renda
Bolsa-Família alivia pobreza, diz governo
DA SUCURSAL DO RIO
Na avaliação do Ministério do
Desenvolvimento Social, a inserção no mercado de trabalho de famílias
extremamente pobres depende de políticas integradas entre ministérios. O
ministério defende, no entanto, que programas como o Bolsa-Família têm
efeito importante na diminuição da desigualdade por aumentarem a renda
das famílias e por diminuírem a pobreza entre gerações ao garantirem o
acesso e a permanência de crianças na escola.
"Os objetivos do Bolsa-Família
são aliviar a pobreza via transferência de renda, garantir que os mais
pobres estejam incluídos e reduzir a pobreza entre gerações, garantindo
que filhos de famílias pobres tenham acesso e fiquem na escola", diz
Rosani Cunha, secretária-geral do programa.
Ela afirma, entretanto, que é
preciso diferenciar entre os beneficiados aqueles que estão situação de
extrema pobreza: "Há famílias que usam os recursos do Bolsa-Família para
ingressar numa atividade econômica. Há outras, no entanto, em que a
situação de exclusão e fragilidade é tão grande que o programa, sozinho,
não resolve. Ele tem que estar associado a outras políticas e esse tem
sido o esforço do governo".
Ela cita como exemplo desse
esforço o envio para o Ministério da Educação do cadastro de famílias
beneficiadas com nível de escolaridade muito baixo, para que tenham
prioridade nos programas de alfabetização. O mesmo foi feito com o
Ministério das Minas e Energias, para que elas tenham acesso à energia
nos domicílios.
Nesses casos, Cunha afirma que
é fundamental também o acompanhamento individual de cada caso, que deve
ser feito principalmente pelas prefeituras.
O secretário de avaliação e
gestão da informação do Ministério do Desenvolvimento Social, Rômulo
Paes, diz que o governo tem consciência de que essas famílias terão
dificuldade de inserção no mercado de trabalho mesmo com o aquecimento
da economia.
"O mercado por si só não vai
resolver o problema dessas pessoas. Mesmo com a economia crescendo e com
o desemprego em baixa, essa população extremamente pobre vai demorar
muito mais para se beneficiar disso. Enquanto não se inserem no mercado,
é preciso que tenham capacidade de se alimentar. Esse é um direito delas
e uma responsabilidade do Estado. Negar isso é voltar a uma discussão de
70 anos atrás ", diz.
Para ele, no debate sobre a
redução da desigualdade, é preciso considerar que houve uma extensão
expressiva dos serviços públicos como educação e saúde e, mais
recentemente, dos benefícios da aposentadoria rural.
"Estamos observando agora uma
nova etapa de expansão desses direitos, ao garantir à população um poder
aquisitivo mínimo. Os benefícios sociais têm aumentado em 21% a renda
das famílias mais pobres. Não é pouca coisa e tem, em grande parte,
ajudado a diminuir a desigualdade", diz.
ARTIGO
Desigualdade e transferência de renda
RODOLFO HOFFMANN
ESPECIAL PARA A FOLHA
Ao divulgar os resultados da
Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2004, o IBGE
ressaltou que "depois de cair desde 1997, o rendimento médio real da
população ocupada estabilizou-se em R$ 733 e a concentração das
remunerações continuou em declínio."
Vejamos o que ocorreu nos
últimos anos com a distribuição do rendimento domiciliar per capita,
definido como o quociente entre o rendimento domiciliar e o número de
pessoas residentes, excluindo pensionistas, empregados domésticos e
parentes de empregados domésticos. A renda média per capita passa de R$
424,50 em 2002 para R$ 399,80 em 2003, uma queda de 5,8%, e depois sobe
3,4%, atingindo R$ 413,25 em 2004. Note-se que essa média em 2004 é
menor do que em 2002.
A redução da desigualdade pode
ser constatada por diversos indicadores. O índice de Gini, em 2002, 2003
e 2004 é, respectivamente, 0,587, 0,581 e 0,569. A porcentagem da renda
apropriada pelos 10% mais ricos cai de 46,8% em 2002 para 46% em 2003 e
45% em 2004. A porcentagem da renda apropriada pelos 5% mais ricos cai
de 33,4% em 2002 para 32,7% em 2003 e 31,9% em 2004.
A proporção de pessoas pobres
aumentou de 35,8% em 2002 para 37,5% no ano seguinte. Não há dúvida de
que 2003 foi um ano relativamente ruim para a economia brasileira, com
renda média baixa. Era esperada alguma recuperação em 2004. A redução na
desigualdade contribuiu para que a diminuição da pobreza entre 2003 e
2004 fosse mais substancial. A proporção de pobres em 2004 é 34,6%, um
pouco abaixo do valor observado em 2002.
A oscilação do grau de pobreza
nesses 3 anos, sendo a pobreza em 2004 inferior à de 2002, é confirmada
por medidas mais sofisticadas, que levam em consideração a insuficiência
de renda de cada pessoa pobre, dando mais peso à insuficiência de renda
dos mais pobres.
Como se explica o crescimento
do rendimento domiciliar per capita de 2003 a 2004 se o rendimento por
pessoa ocupada permaneceu estagnado? Um fator importante, obviamente, é
o aumento do nível de ocupação, que passou de 55,4% em 2003 para 56,3%
em 2004, como ressaltou o próprio IBGE ao divulgar os resultados da
Pnad. Mas há, também, mudanças importantes na composição do rendimento
domiciliar.
A participação do rendimento
de todos os trabalhos (atividades exercidas pelas pessoas) no rendimento
domiciliar total cai de 76,7% em 2003 para 76,3% em 2004. A participação
de aposentadorias e pensões "oficiais" (pagas pelo governo ou por
Instituto de Previdência) cai de 18,5% para 18,1%, mas a participação de
outras aposentadorias e pensões sobe de 1,3% para 1,5%, de maneira que a
participação do total de aposentadorias e pensões permanece
relativamente estável (19,8% em 2003 e 19,6% em 2004).
Infelizmente, nos dados da
Pnad, o item "outros rendimentos" inclui recursos de natureza muito
distinta: juros e dividendos, e também o que as pessoas receberam de
programas como bolsa-escola ou renda mínima.
Cabe ressaltar que o
rendimento de juros e dividendos é mais subdeclarado do que outros
componentes da renda. Verifica-se que a participação desses "outros
rendimentos" no total da renda domiciliar cresceu de 1% em 2003 para
1,6% em 2004. E o que chama a atenção é o extraordinário crescimento da
participação desse item na renda total dos estratos mais pobres.
Para domicílios com rendimento
per capita igual ou inferior a R$ 50 (em moeda de setembro-outubro de
2004), essa participação passa de 9,3% em 2003 para 18,9% em 2004.
Para domicílios com rendimento
per capita de mais de R$ 50 a R$ 100 essa participação sobe de 3,7% para
8,4%. Para todos os estratos com rendimento per capita até R$ 300 essa
participação mais do que dobra entre 2003 e 2004. É razoável admitir que
nesses estratos praticamente não há rendimento de juros e dividendos.
Podemos concluir, então, que o
crescimento da participação desse item nos rendimentos totais reflete a
ampliação dos programas oficiais de transferência de renda. Trata-se de
componente com participação diminuta na renda total, mas com
participação expressiva na renda dos mais pobres. Seu crescimento
contribuiu substancialmente para reduzir a pobreza.
Um componente importante da
renda total que poderia estar contribuindo para reduzir a desigualdade
seria o rendimento de aposentadorias e pensões, mas, sob esse aspecto,
não há indicação de nenhuma melhora em 2004. O rendimento de
aposentadorias e pensões continua reforçando o padrão de elevada
desigualdade da distribuição da renda no Brasil.
Rodolfo Hoffmann é professor do Instituto de
Economia da Unicamp e autor de "Estatística para economistas" (Pioneira,
1998)
(© Folha de S. Paulo, 25.12.2005)
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