Para federação dos bancos, paralisação por aumento salarial atinge
apenas 4% do total de agências
DA REPORTAGEM LOCAL
DA FOLHA ONLINE
A greve dos bancários por
tempo indeterminado se ampliou ontem, segundo dia de paralisação por
aumento salarial, e atingiu 21 Estados e o DF e um número maior de
agências em São Paulo.
Para a Fenaban (Federação
Nacional dos Bancos), a adesão à paralisação diminuiu -de 761 agências
afetadas na quinta-feira para 733 ontem, o que significa cerca de 4% das
17,5 mil agências.
O Ministério Público do
Trabalho de São Paulo pediu ontem ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho)
o julgamento da paralisação -foi ajuizado um dissídio coletivo de greve-
e uma liminar para garantir a manutenção de 70% dos serviços
operacionais dos bancos paulistas.
Representantes do Sindicato dos Bancários de São Paulo e da Fenaban têm
24 horas para informar a extensão da paralisação.
A CNB-CUT (Confederação
Nacional dos Bancários) estima que 116 mil dos cerca de 300 mil
representados por sindicatos filiados à entidade tenham cruzado os
braços. A greve ontem teve a adesão de bancários do Distrito Federal e
de Santa Catarina.
Há greve desde quinta-feira
nos dos seguintes Estados: São Paulo, Rio, Acre, Amapá, Bahia, Espírito
Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Alagoas, Maranhão, Pernambuco,
Ceará, Piauí, Sergipe, Pará, Paraíba, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande
do Norte e Rio Grande do Sul. Nas demais localidades, ainda não há
greve.
Para o sindicato de São Paulo,
a paralisação foi ampliada de 160 para 210 agências -com a adesão de 26
mil bancários (na quinta-feira eram 25 mil). Segundo os sindicalistas,
além dos locais onde há mais concentração de funcionários e da região
central, a greve se estende para os bairros.
A tendência é que a
paralisação se amplie ainda mais na segunda-feira, de acordo com o
sindicato, porque o juiz Marcelo Freire Gonçalves, do TRT-SP, concedeu
ao sindicato ontem liminar assegurando o direito de greve à categoria.
Os bancos usam os processos de interdito proibitório (instrumento
jurídico para liberar o acesso de bancários e clientes aos
estabelecimentos) para manter as agências abertas. O sindicato entende
que os interditos estão suspensos. A Fenaban discorda./
"Os bancários poderão exercer
livremente seu direito de greve sem temer a represália dos PMs", afirma
o presidente do sindicato de São Paulo, Luiz Cláudio Marcolino. Segundo
ele, desde o início da campanha, seis sindicalistas já foram detidos e
vários bancários feridos em confrontos com a PM. "Nós respeitamos o
direito de greve. Mas a agência não pode ser bloqueada", afirma Magnus
Apostólico, da Fenaban.
(© Folha de S. Paulo, 08.10.2005)
Trabalhador diz que pressionará sindicatos
CLAUDIA ROLLI
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
A crise política que atinge o
governo Lula deve levar os trabalhadores a cobrar mais ações de
sindicatos filiados à CUT (Central Única dos Trabalhadores), central
historicamente ligada ao PT e que apóia o presidente.
Essa é a avaliação de
bancários que participaram na última quarta-feira de assembléia geral da
categoria, que optou pela greve para reivindicar melhores salários. Para
eles, os sindicatos ligados à Articulação (corrente majoritária que
comanda o PT) também vão querer "mostrar mais serviços" para se
desvincular da crise.
"Diferentemente do ano
passado, tem gente achando que o sindicato dos bancários vai forçar a
greve neste ano para limpar a barra", afirma Marco Antônio Apolinário,
44, funcionário da Caixa Econômica Federal. No ano passado, segundo
alguns bancários, o sindicato não estava a favor da greve, que só
ocorreu por forte pressão dos trabalhadores.
Douglas Lopes, 29, empregado
do banco Santander, afirma que também ficou "insatisfeito" com a atuação
do sindicato dos bancários no ano passado. "Deu a entender que houve um
jogo de cartas marcadas. Eles queriam impor um reajuste. Neste ano,
estão brigando mais, há mais coerência com a realidade", afirma.
Para Lopes, o sindicato
deveria aproveitar a crise política para "se fortalecer e mostrar qual é
o verdadeiro papel de um sindicato, que é o de representar seus filiados
e garantir novos direitos", diz.
Na avaliação de A.B., 37,
funcionária há cinco anos do Banco do Brasil (ela prefere não se
identificar por temer represálias do banco), a crise política "põe em
xeque a representatividade e a credibilidade dos sindicalistas". Segundo
a bancária, o que vai ocorrer é mais pressão para que o sindicato mostre
se, de fato, defende o interesse dos trabalhadores.
Gerente do Itaú há dez anos,
E.M., 35, concorda em que há mais pressão dos trabalhadores, mas afirma
que não pode haver generalização. "As denúncias me incomodam como
cidadã. Mas dizer que ser sindicalista é sinônimo de receber "mensalão"
não dá. Essa generalização mancha a imagem dos sindicatos e é perigosa."
Luís Sérgio, 45, funcionário
do Banco do Brasil, afirma que, até agora, a crise política não afetou o
movimento sindical, apesar de nomes importantes ligados ao sindicalismo
estarem associados a esquemas de corrupção no PT. "Mas é um alerta. Se
não for passada a limpo essa situação, vai refletir muito [nos
sindicatos]."
Lideranças "antigas"
Na avaliação de Marcelo
Dias, 34, também empregado do BB, a crise não atinge o sindicalismo
porque PT e sindicato são instituições distintas. "As lideranças que
estão no governo são antigas. Luiz Gushiken e Ricardo Berzoini
[ex-presidentes do Sindicato dos Bancários] pertencem a uma outra
geração de sindicalistas. Atualmente aqui no sindicato dos bancários há
um novo comando", afirma Marcelo Dias, 34, que não é sindicalizado e
pela primeira vez participava de uma assembléia nos bancários.
Para ele, os sindicalistas da
CUT estão em uma encruzilhada: "Se pedem um índice de reajuste distante
da realidade, os representantes do patrão, que são antigos parceiros nos
sindicatos, não vão querer negociar. Se pedem reajuste menor, vão ser
cobrados pelos trabalhadores", afirma.
Dias afirma estar "de acordo"
com as reivindicações defendidas neste ano pelo sindicato que o
representa -11,7% de reajuste e PLR (Participação nos Lucros e
Resultados) maior do que a que foi paga na campanha salarial dos
bancários do ano passado.
Luciano Ramos da Silva, 35,
funcionário do HSBC e dirigente da federação da categoria, diz que os
trabalhadores "sabem separar a discussão político-partidária das
questões sindicais".
Alguns bancários estão
decepcionados com o governo Lula. "Ficamos dez anos sem ter aumento de
salário. Quando o PT assumiu, acreditávamos que a situação ia melhorar
muito para os trabalhadores, o que não aconteceu", diz Ricardo Castilho,
empregado do Banco do Brasil.
Segundo ele, nos últimos dez
anos, os funcionários do Banco do Brasil tiveram uma "perda enorme nos
salários. Recuperamos um pouco no governo Lula, mas menos do que
gostaríamos".
Ex-funcionário do setor de
transporte e há um ano e meio bancário do Safra, Reginaldo da Cruz, 40,
também esperava "mais resultados" do governo. "As melhorias têm de
chegar rápido aos mais pobres, o governo tem de olhar para os menos
favorecidos."
Alguns bancários consideram
que a CUT corre o risco de perder sindicatos por conta da crise
política. Tudo vai depender, na análise de M.J.C., 46, funcionário da
Caixa Econômica Federal, do comportamento da cúpula da central daqui
para a frente.
(© Folha de S. Paulo, 08.10.2005)
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