Atividade foi atingida pela revolução produtiva e ficou "frágil,
desorganizada e sem representatividade", afirmam
FÁTIMA FERNANDES
CLAUDIA ROLLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Os sindicatos perderam a sua
real identidade e correm atrás de um novo foco. Afetados pela
reestruturação produtiva e pela globalização, estão mais dependentes do
Estado, próximos das empresas, enfraquecidos, desorganizados, com pouca
representatividade e "repletos de pelegos". Essa é a análise de 20
especialistas consultados pela Folha.
Do surgimento na Inglaterra no
século 18, o sindicato guarda pouca semelhança. Chegou a ser clandestino
e tinha interesses contrários aos dos patrões e aos do Estado. A
revolução produtiva nos anos 70 no mundo e nos anos 90 no Brasil atingiu
fortemente a identidade dos sindicatos, segundo os especialistas. Crise
essa, aliás, que não está restrita aos sindicatos brasileiros -é um
fenômeno mundial, afirmam.
O que mudou nos sindicatos de
trabalhadores nos últimos anos? As respostas de juízes do trabalho,
advogados, acadêmicos, economistas e sindicalistas revelam que os
sindicatos passaram a ter uma atividade mais assistencialista, deixaram
de lado as teorias revolucionárias, perderam a força de pressão que
tinham sobre o poder econômico e não foram capazes de se adaptar à
economia aberta.
"Não façam comparação entre o
sindicalismo que produzíamos em 1980 e o que se produz em 2005 [...] O
sindicato era um órgão contestador. Nossa luta era diretamente no
enfrentamento com o empresariado. Hoje, o sindicato não tem só que se
preocupar com a pauta de reivindicação, que é importante, mas com sua
relação com o poder público", disse o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva em entrevista ao presidente da CUT (Central Única dos
Trabalhadores), Luiz Marinho.
Volta ao passado
O desafio dos sindicatos, na
análise de especialistas, é resgatar o papel que tinham no passado, como
a luta para conquistar direitos para os trabalhadores, além de
representar uma classe de trabalhadores muito diferenciada.
"O sindicato tem de
representar o trabalhador estável [com carteira assinada] e o
terceirizado, além de voltar a ter poder", afirma Ricardo Antunes,
professor-titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas da Unicamp.
Com as mudanças no setor
produtivo, as empresas reduziram e enxugaram drasticamente o quadro de
pessoal e optaram por acordos trabalhistas mais flexíveis. "Isso
fragmentou as categorias profissionais, que passaram a ser menos
estruturadas, menos solidárias. A classe trabalhadora sofreu uma
mutação. Há 20 anos, a informalidade representava 25%. Hoje, é de 60%."
Há uma "desconexão" entre a
base de trabalhadores e a cúpula dos sindicatos e das centrais. "Por
isso, o sindicato se transformou numa instituição hipócrita, que não se
leva mais a sério. O sindicalismo brasileiro caminha para se transformar
num grande shopping sindical. É só olhar no que se transformou o 1º de
Maio, num dia de sorteio de casas, carros e oferta de juros mais baixos
para sócios de sindicatos", diz Luis Carlos Moro, presidente da Alal
(Associação Latino-Americana de Advogados Trabalhistas).
O sindicato mudou, diz Márcio
Túlio Viana, professor e juiz do trabalho aposentado, porque o lugar do
trabalho mudou. "No passado, as pessoas se reuniam numa fábrica e se
submetiam aos mesmos sofrimentos, que as levavam a lutar. Hoje, as
fábricas estão repartidas, o que resultou na desmobilização dos
trabalhadores."
A fragmentação da classe
trabalhadora impede a formação de uma luta organizada em sindicatos;
enquanto isso, o capital (as empresas) se organiza mundialmente. "Esse é
o dilema que o sindicalismo vive no Brasil e no mundo", afirma Jorge
Luiz Souto Maior, professor de direito da USP e juiz do trabalho.
No Brasil, segundo a sua
avaliação, a perda de identidade do sindicato é maior porque, mesmo com
a chegada de Lula, um ex-sindicalista, à Presidência, os sindicatos não
marcaram presença. "Houve uma grande frustração, pois, quando o PT
chegou ao poder, acabou incorporando a política econômico-social dos
mais ortodoxos governos de direita."
Os sindicatos não conseguiram
propor -e fazer- mudanças nas relações do trabalho que permitissem
"amenizar o ímpeto do movimento global do capital e seus efeitos
negativos no mundo do trabalho", segundo afirma Arnaldo Mazzei Nogueira,
professor da PUC-SP e da USP. "Na transição para o governo Lula,
apostava-se em um conjunto possível de mudanças. Imaginava-se que havia
chegado a hora do trabalho no Brasil. Mas não chegou."
A expectativa, na análise do
professor, era enterrar o passado neoliberal e adotar medidas que
pudessem não só aumentar o emprego e a renda mas também colocar em
prática a liberdade sindical -bandeira histórica da CUT- e promover uma
reformulação "completa" da estrutura e legislação sindicais. Mas,
segundo ele, o projeto de reforma sindical passa longe disso.
"Arquive-se a proposta de reforma sindical. Chega de corporativismo, de
processos pelo "alto" [feitos pela cúpula das centrais] e dessa
modernização conservadora", diz.
Independência
Manter a autonomia em relação
a um governo de sindicalistas é outro desafio, na opinião do
vice-presidente da Fecomercio SP e presidente do Conselho de Relações do
Trabalho da entidade, Manuel Henrique Farias Ramos. "CUT e Força
Sindical recebem milhões do governo. Assim, fica difícil falar em
autonomia", diz.
Os sindicatos se "acomodaram",
na avaliação do professor José Marcio Camargo, economista da PUC-RJ,
porque o poder normativo da Justiça do Trabalho "sempre resolve tudo".
"A justiça trabalhista é onipresente e onipotente. O sindicato nem
precisa negociar. É só recorrer à Justiça."
No entendimento do economista,
também é fato que os sindicatos "não conseguiram se adaptar a uma
economia aberta e a taxas de inflação estáveis".
Para o presidente da CUT,
poucos sindicatos de fato conseguiram superar as mudanças impostas pela
reorganização que ocorreu no mundo do trabalho. "Os que resistiram
ampliaram o seu papel, com demandas que interferem não só no local do
trabalho mas na vida do trabalhador. Mas a maior parte não se
fortaleceu. Só a reforma sindical pode acabar com os picaretas", diz
Marinho.
Paulo Pereira da Silva,
presidente da Força Sindical, diz que, hoje, os sindicatos são voltados
à negociação. "A greve só é usada em último recurso. Boa parte dos
sindicatos está se adaptando à nova realidade. Alguns ficaram no
radicalismo. Outros foram para a direita e se "pelegaram" de vez."
(© Folha de S. Paulo, 01.05.2005)
Para líderes, reajustes provam rumo sindical
DA REPORTAGEM LOCAL
A conquista do melhor reajuste
salarial dos últimos oito anos -como ocorreu nas negociações entre
patrões e empregados do ano passado- põe em xeque a análise de que os
sindicatos estão fracos e sem poder de negociação, na opinião de
sindicalistas consultados pela Folha.
"Os estudiosos que nunca
entraram em um sindicato deviam prestar mais atenção no que tem
ocorrido, por exemplo, com as negociações salariais", afirma Luiz
Marinho, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores).
Levantamento feito pelo Dieese mostra que mais da metade dos 658 acordos
salariais feitos em 2004 resultou em reajustes maiores do que a
inflação.
"É claro que, quando a
economia está em baixa, fica difícil negociar aumento de salário. Mas,
se os sindicatos não são representativos e não estão organizados, não
conseguem fazer boas negociações", afirma Marinho.
Para o secretário-geral da
central, João Felício, os sindicatos não "saíram do foco". "A luta por
melhores salários e emprego continua. O que pode ter mudado são as
formas de luta. Existem momentos em que é mais fácil fazer greve do que
em outros. Mas nós temos a mesma concepção: continuamos independentes",
afirma.
Equívoco
O poder público tem mais
respeito, hoje, pelo movimento sindical, o que dá aos sindicatos mais
margem de negociação política do que há 20 anos, segundo o sindicalista.
"E o empresário tem a cabeça mais arejada. Quem diz que o movimento
sindical perdeu o foco está equivocado", afirma.
Ricardo Patah, presidente do
Sindicato dos Comerciários de São Paulo, ligado à Força Sindical,
considera que o sindicato tem de romper barreiras. "A principal
atividade dos sindicatos no passado era repor a inflação nos salários.
Hoje, tem de buscar também o conforto para os trabalhadores. O seu papel
é mais amplo", diz.
O sindicato que comanda,
segundo informa, faz acordo com universidades para que os sócios tenham
acesso à educação e com empresas para elevar o emprego. "O sindicalismo
tem de caminhar nessa direção", afirma Patah.
Paulo Pereira da Silva,
presidente da Força Sindical, afirma que o movimento sindical vive um
momento natural de transição. "O sindicato vivia no país para repor a
inflação nos salários. Era uma beleza. O Medeiros [Luiz Antonio de
Medeiros, deputado federal, ex-presidente da Força Sindical] cansava de
ser carregado pelos trabalhadores porque conseguia dobrar o salário da
categoria. Eu nunca consegui isso. Hoje temos de fazer outras coisas,
além de repor a inflação, como lutar contra o desemprego. Alguns
sindicatos têm até convênio com cemitério para atender o trabalhador na
morte", afirma Paulinho.
Transição
Para Medeiros, os sindicatos
estão "fazendo um esforço" para tentar mudar no Brasil. "É preciso
voltar às raízes, formar quadros novos. O sindicalismo não deve ficar só
na diversão. Hoje, no 1º de Maio, por exemplo, quem mobiliza são os
artistas. O trabalhador vai atrás do seu artista, não quer saber de
ouvir o sindicato", diz.
O movimento sindical, na
análise de Felício, está numa fase de transição. "O mundo do trabalho
mudou, como aconteceu com a revolução industrial na Inglaterra. Hoje,
por exemplo, a terceirização da mão-de-obra é muito maior. Agora, é fato
que tem muito pelego no movimento sindical, que não mobiliza sua base.
Mas isso não quer dizer que o sindicato perdeu identidade", afirma.
(CR e FF)
(© Folha de S. Paulo, 01.05.2005)
Petistas e sindicalistas
duvidam de aprovação da reforma sindical
O 1º de Maio da CUT, na avenida Paulista: comemorações do Dia do
Trabalho revelam dificuldades do governo em atender principal
reivindicação das centrais
César Felício e Raquel Landim
De São Paulo
A aprovação pelo Congresso da
reforma sindical, principal reivindicação das centrais no governo Luiz
Inácio Lula da Silva, foi posta em dúvida ontem por lideranças
parlamentares, ministros e sindicalistas, durante as festas pelo Dia do
Trabalho. A forte resistência do empresariado e de parte da base
governista, em um momento de fragilidade do Planalto no Legislativo, é o
motivo. A reforma foi estabelecida como um dos principais pontos da
relação entre Lula e as centrais sindicais desde o início do governo. O
fracasso da reforma, no entanto, não será suficiente para turvar as
relações entre o presidente e sua principal pilastra sindical, a Central
Única dos Trabalhadores (CUT). Na festa de ontem, do 1º de Maio, o
presidente da central, Luiz Marinho, pediu aos sindicalistas apoio à
reeleição de Lula.
"A gente devia botar a reforma
sindical na gaveta, discutir melhor, esperar passar um pouco essa
turbulência que estamos vendo e só posteriormente recuperar o debate da
reforma sindical", afirmou o deputado João Paulo Cunha (PT-SP),
ex-presidente da Câmara e ex-sindicalista, no palanque armado pela CUT
na Avenida Paulista, em São Paulo. O líder do governo na Câmara, Arlindo
Chinaglia (PT-SP), adotou a mesma linha de raciocínio.
"Se do ponto de vista da agenda
mais geral do país, a reforma sindical trouxer muitos problemas para a
base aliada, eu também vou procurar ter a maior cautela. Se em dado
momento a gente concluir que é mais prudente botar freio, o faremos",
disse. Chinaglia e João Paulo citaram a reforma tributária e o marco
legal das agências reguladoras, ambos temas de interesse do
empresariado, como temas que devem ser priorizados pelo Legislativo.
As dificuldades foram reconhecidas
até mesmo pelo ministro do Trabalho e ex-sindicalista Ricardo Berzoini,
que encaminhou a proposta do governo à Câmara. "O Congresso está sob
paralisia. É necessário desobstruir a pauta, com os partidos negociem
uma agenda comum, para que possamos votar uma série de questões
importantes", afirmou. "Se o Congresso continuar neste ritmo, não será
só a reforma sindical que não será aprovada", completou o presidente da
CUT, Luiz Marinho. No palanque da Força Sindical, na zona norte da
cidade, o presidente da central, Paulo Pereira da Silva, demonstrava o
mesmo pessimismo. "Estou começando a ficar preocupado. Acho que o
governo não está empenhado em fazer a reforma".
A reforma sindical é combatida pelo
empresariado por dois aspectos que supostamente desequilibrariam a
relação negocial entre capital e trabalho, ainda que o governo
propusesse no futuro a flexibilização dos direitos trabalhistas: são a
substituição processual, mecanismo pelo qual o sindicato pode acionar
judicialmente uma empresa sem mandato formal dos empregados, e a
representação sindical no local de trabalho.
Ao propor a reforma sindical antes
da trabalhista, o governo pretende fazer com que, em troca da segunda, o
meio patronal aceite a primeira. É com a ameaça de manter a CLT intocada
que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, ainda joga para tentar vencer
as resistências empresariais em relação à reforma sindical.
"A reforma sindical está na pauta
do Congresso e a trabalhista no Fórum Nacional do Trabalho. Vai demorar
de doze a 16 meses pra ficar pronta e aí vai para o Congresso. A vida é
assim, dura", afirmou. Se a inviabilização da reforma sindical se
confirmar, os próprios empresários são céticos quanto à possibilidade de
o governo federal assumir compromissos em relação à reforma da CLT,
mesmo a longo prazo.
"A possibilidade de relançar a
reforma trabalhista não existe, porque ela sequer é debatida.
Pontualmente um ou outro aspecto pode entrar em discussão", admitiu o
presidente do Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp), Claudio Vaz,
no palanque da Força Sindical.
Mais importante líder sindical da
história do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou dez
ex-sindicalistas no primeiro escalão do governo. Mas a agenda das
centrais sindicais não prevaleceu. Tanto Luiz Marinho como José Dirceu,
embora afirmem que o movimento sindical hoje conta com um nível de
participação nas decisões nacionais inédito, citam como principal
vitória dos trabalhadores no governo um fenômeno da macroeconomia: o
crescimento do PIB em 2004 após a estagnação no primeiro ano do governo.
"A volta do emprego e da renda é a maior vitória para o movimento
sindical", disse Dirceu.
Filiado ao PT, Marinho destaca o
trânsito do movimento sindical no primeiro escalão do governo como a
conquista mais importante. "Este governo dialoga. Acima de tudo, ouve.
Com os outros presidente, o movimento sindical não tinha espaço para
nada. Evidente que o movimento sindical sempre vai reclamar, por melhor
que seja o governo", disse.
Representante da oposição no
meio sindical, Paulo Pereira da Silva cita o recuo do governo na Medida
Provisória 232, que afetava principalmente o meio empresarial, como uma
conquista trabalhista. "O governo editou a Medida Provisória 232, que a
gente derrotou, agora editou a MP 242 que a gente está em luta para
derrotar. As derrotas que tivemos é que não conseguimos fazer reforma
nenhuma", lamentou.
(© Valor Econômico, 01.05.2005)
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