Turismo & mercados populares: a Feira de Caruaru

Foto: PMC

Hoje a feira de Caruaru realiza-se em um amplo pátio na região central da cidade, no Parque 18 de maio.

Feiras populares espalham-se pelas ruas de todo o País e isso não é uma criação brasileira. Desde a idade média, quando ainda se formavam os primeiros aglomerados urbanos, que os produtores já expunham suas mercadorias pelas ruas da Europa e esse costume chegou ao Brasil pelas mãos dos colonizadores e também dos imigrantes europeus.

Quando visitei a cidade de Feltre (Provincia de Belluno, Região do Vêneto, na Itália), pude encontrar uma graciosa feira em torno de uma muralha medieval, como se fosse um museu vivo mostrando como surgiu essa forma popular de mercado.

Eu cresci em Caruaru – e isso significa que percorrer a maior feira popular do Brasil pelo menos uma vez por semana era tão natural quanto jogar futebol, empinar papagaio, brincar de bola-de-vidro. Na época a famosa feira se espalhava por dezenas de ruas, como se fosse uma serpente gigantesca, ocupando uma grande parte do centro da cidade. As barracas eram montadas na noite da sexta-feira e a feira se prolongava por todo o sábado. Havia, ainda, uma versão menor nas quartas-feiras.

Foto: Fundaj

A feira de Caruaru antiga – ao fundo, igreja da Conceição

Na realidade, como se fosse uma moderna loja de departamentos, a feira dividia-se em vários setores, cada qual na sua rua: das frutas e verduras, das carnes, dos passarinhos, dos bodes, da farinha, dos secos e molhados, dos utensílios de barro (embrião da atual feira de artesanato) e, entre outras, do troca-troca. Esta última mantinha a forma de comércio medieval: o escambo. Trocava-se espingarda por rádio portátil; um terno de gabardine inglesa por bicicleta, máquina de costura por ovelhas…

O que se vendia na Feira de Caruaru? Praticamente tudo. Isso originou a conhecida música de Onildo Almeida, compositor caruaruense ainda vivo, tornada popular por Luiz Gonzaga.

A Feira de Caruaru

Composição: Onildo Almeida

A Feira de Caruaru,
Faz gosto a gente vê.
De tudo que há no mundo,
Nela tem pra vendê,
Na feira de Caruaru.

Tem massa de mandioca,
Castanha assada, tem ovo cru,
Banana, laranja, manga,
Batata, doce, queijo e caju,
Cenoura, jabuticaba,
Guiné, galinha, pato e peru,
Tem bode, carneiro e porco,
Se duvidá… inté cururu.

Tem cesto, balaio, corda,
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu,
Tem fumo, tem tabaqueiro,
Feito de chifre de boi zebu,
Caneco, alcovitêro,
Penêra boa e mé de uruçú,
Tem carça de arvorada,
Que é pra matuto não andá nú.

Tem rêde, tem balieira,
Mode minino caçá nambu,
Maxixe, cebola verde,
Tomate, cuento, couve e chuchu,
Armoço feito nas tordas,
Pirão mixido que nem angu,
Mubia de tamburête,
Feita do tronco do mulungú.

Tem loiça, tem ferro véio,
Sorvete de raspa que faz jaú,
Gelada, caldo de cana,
Fruta de paima e mandacaru.
Bunecos de Vitalino,
Que são cunhecidos inté no Sul,
De tudo que há no mundo,
Tem na Feira de Caruaru.

A propósito da famosa feira, o site da Fundaj – Fundação Joaquim Nabuco registra:

“A feira surgiu há mais de 200 anos e sua origem se confunde com a da cidade. O local era ponto de parada para vaqueiros que traziam o gado do Sertão para o Litoral e de mascates que faziam o sentido inverso. A feira acontece aos sábados, começa a ser montada no dia anterior, à tarde, assim que começam a chegar os primeiros sertanejos e brejeiros, com seus produtos para vender. Chegam usando os mais diversos tipos de transportes: jumento, carroça, velhos caminhões, camionetas, bicicletas, carros de boi e também carros. Por sua diversidade, hoje a feira de Caruaru movimenta o local praticamente todos os dias da semana.

Em 1992, foi transferida do Largo da Igreja da Conceição para o Parque 18 de Maio, também localizado na parte central da cidade.

Centenas de barracas coloridas espalham-se por mais de dois quilômetros nas ruas da cidade, vendendo uma grande variedade de produtos, principalmente objetos do artesanato popular: chapéus de palha, de couro e tecido, cestas, objetos de barro e cerâmica, brinquedos populares, gaiolas.

Há setores onde se vende frutas, verduras, cereais, ervas medicinais, carnes, assim como outros onde são encontrados roupas, calçados, bolsas, panelas e outros utensílios para cozinha, móveis, animais, ferragens, miudezas, rádios, artigos eletrônicos importados e muitos outros.

Existe um setor chamado troca-troca onde nada se vende, tudo se troca: bicicletas, relógios, rádios, roupas, instrumentos musicais, carteiras. São negociados depois de muita pechincha. Cegos tocam sanfona, violeiros e cantadores lançam seus desafios e os vendedores de literatura de cordel anunciam através de um alto-falante as proezas dos cangaceiros.

Conjuntos musicais e bandas de pífanos também são encontradas no meio da feira. É ali, na mistura de comércio, festa e arte, que os artistas populares criam uma cultura nordestina.” (Fonte: http://bit.ly/3VJ7vs)

VÍDEO:

Fotos da feira de Caruaru, ao som de Luiz Gonzaga (nesta gravação do Rei do Baião confunde-se com a letra, pula uma estrofe, mistura uns versos e até brinca com isso):

Feira de Caruaru, na curiosa interpretação do coral Tuna Universitária do Minho, apesar de algumas imperfeições quanto à letra:

Este post faz parte de uma série — que eu denominei de Turismo &… — , sem periodicidade fixa, na qual pretendo mostrar imagens que representaram momentos marcantes e instantes mágicos vividos por mim diante de ícones geográficos, culturais, arquitetônicos, humanos ou artísticos.

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3 respostas a Turismo & mercados populares: a Feira de Caruaru

  1. O DIA DA RAÇA HUMANA

    No dia 21 de fevereiro comemora-se o dia do imigrante italiano. Falo um pouco o idioma da origem, mantenho o nome do tronco familiar, mas nunca fui convidado (nem vejo necessidade no evento) para comemorar o dia do ítalo-descendente.

    O Brasil é um povo de brasileiros, com histórias individuais. Devemos comemorar e enaltecer coisas históricas e criativas, e não ficar remoendo faces tristes de acontecimentos. No caso, que os descendentes de escravos africanos fiquem livre de um rótulo que eles próprios – sem o saber – fazem questão de ficar revivendo, e com o apoio de interesseiros tantos.

    Relembremos. Os portugueses e brasileiros da época da escravidão não aprisionaram nenhum daqueles negros, os quais já estavam aprisionados por outros negros rivais, lá na Mamma África ainda. Ora, sejamos sensatos; eram africanos aprisionando escravizando e vendendo irmãos africanos. Houve cumplicidade e oportunismo? Sim, ouve. Mas que o peso seja repartido justamente, e só no terreno da história.

    Outra coisa. Nunca vi nem ouvi nada de movimento afro-descendente com o intuito de reaver nomes e principalmente sobrenomes dos troncos familiares. Parece que isso não dá ibope. Mas dá história!

    Como ítalo-descentente eu e parentes pesquisamos pelo sobrenome Favini e consta historicamente que os primeiros teriam sido escravizados na Turquia, talvez antes da conquista do império romano. E daí? Vamos xingar quem? E pior, que não nos machuquemos por isso. Aliás, que ninguém se machuque por questões parecidas.

    Nada de ficar alimentando separatismo, racismo e outros ismos. Incautos não se dão conta dos grandes interesses políticos e financeiros por trás disso tudo. Tem gente parece ser masoquista, gosta de ficar por baixo e quando não fica tenta atrair que forças sociais o façam.

    Levantamos nossas cabeças. Sejamos de origens nórdicas, caucasianas, africanas, japonesas ou o que mais formos. Sem essa de botar na cabeça das crianças de hoje que ainda há racismo contra quem quer que seja (exceto resíduos que o tempo apagará). Não se apaga incêndio jogando gasolina explosiva nele.

    Gente, a rigor na humanidade só existe uma raça, que é a raça humana. Unimo-nos pacificamente, e confiantes no futuro que depende sobremodo do nosso presente, das nossas atuações presentes. Sem essa de dia disso e dia daquilo, em termos de recordar negativismos. A vida pode ser bela e disso depende muito de nós. E que construamos O Dia da Raça Humana.

    Pelo menos, penso assim e convido a refletirem mais sobre tais datas e coisas.

  2. Bom não sou de Caruaru, mas moro aqui a cerca de 2 anos e sinto-me filho desta terra maravilhosa. É impossivel não enconta-se com seu povo, sua história, sua cultura. Sinto-me no dever como sei que todos compartilham disso também, é de promover nossa terra, nossa cultura.

    Parabenizo você por este artigo maravilhoso, eu sigo também esse caminho de demonstrar quem somos, e para que vinhemos.
    Apesar de meu segmento ser outro em termos de informação e conteúdo, mas o intuito é o mesmo, é sempre exaltar Caruaru.

    Criei um blog para debatermos assuntos pertinenetes a nossa Cidade, mas não deixo de falar também da região, pois sei que esta depende muito de nossa cidade. Meu blog é fala sobre Marketing Digital, sobre tendências e novas ferramentas de se trabalhar com ela, como são as pessoas que a usam, o que pensam, como agem, procuro descrever um pouco de tudo isso e mais…

    Sei que Caruaru tem um grande futuro pela sua frente, não é atoa que é o coração do interior de Pernambuco, por tanto sempre trago tais assuntos para compartilhas com nossos conterrêos, deixa-los mais informados sobre que há no mercado digital, e deixa-los atento as novidades para que assim, possamos juntos elevar Caruaru a um patamar cada vez mais alto.

    Meu blog é esse, deixo aqui seu link para quem quiser compartilhar tais idéias, aderir as discursões e lançar sugestões e criticas.

    http://www.mkdcaruaru.blogspot.com

    Abraço a todos os leitores desse Blog!

  3. Larissa disse:

    muito legal

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