Cenários não lineares na estratégia de investimentos da Previ

Observação: Por se tratar de um texto publicado em revista de circulação restrita, dirigida às entidades fechadas de previdência privada, o enfoque desta entrevista é predominantemente técnico. Apesar disso, resolvi dar divulgação por entender que aborda tema de grande interesse dos beneficiários e assistidos da Previ.  Romildo G Pinto


O modelo é inédito entre os fundos de pensão brasileiros e reflete algumas práticas que já são utilizadas por outras grandes companhias

Em busca de maior sintonia com o atual ambiente econômico brasileiro, em que a projeção de queda das taxas de juros a médio e longo prazos torna premente a diversificação das carteiras de ativos e a definição de estratégias mais sofisticadas, a Previ está incorporando novos conceitos de planejamento à elaboração de sua política de investimentos. Além de conferir e atualizar permanentemente a aplicação de pontos que são comuns também aos grandes fundos de pensão de outros países, o novo modelo de planejamento adotado pela Previ incorpora uma concepção que tem como objetivo integrar a política de investimentos, marcada pela visão de longo prazo, à estratégia corporativa da entidade.

Esse modelo, explica o diretor de Planejamento Vitor Paulo Camargo Gonçalves (foto de Cícero Dias), é inédito entre os fundos de pensão brasileiros e reflete algumas práticas que já são utilizadas por grandes companhias – como Petrobras, Eletrobras e Vale, para citar alguns exemplos nacionais – valorizando entre outros aspectos a projeção de cenários não lineares. Ele observa que estão sendo implementados mecanismos para elaborar políticas com horizonte de longo prazo que estejam vinculadas à estratégia corporativa da Previ, o que passa pela definição muito clara de qual é o passivo, para quem será feita a política de investimentos e quais são os seus objetivos.

Cenários não lineares

O novo conceito já está sendo observado na elaboração da política de investimentos que irá vigorar no período de 2011 a 2017 .“Ao longo do tempo, a situação econômica do país gerou conforto aos investimentos por conta das altas taxas de juros reais, mas as projeções mostram que essas taxas voltarão a ser reduzidas e precisamos nos antecipar para assegurar posições em outros investimentos, entrar em novos setores para obter melhores resultados”.

Para isso, os cenários não lineares são um instrumento essencial na hora de conferir maior complexidade às decisões. Tanto que a definição da atual política de investimentos da Previ inclui, por exemplo, a análise de empresas participantes de cadeias de valor em que a fundação já investe. Um caso hipotético é o de uma empresa fabricante de aviões em que as análises de cenários venham a apontar, em determinado momento, que o número de pedidos irá exigir maiores investimentos dos fornecedores, investimentos que eles não estão preparados para fazer, mas que, certamente, trariam resultados importantes no futuro. Nesse caso, poderá vir a ser interessante investir nessas empresas, seja por meio de títulos de crédito (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) ou de Fundos de Investimento em Participações (FIPs). O exemplo mais emblemático, lembra Vitor Paulo Gonçalves, é o do setor de óleo e gás. Nesse caso, a demanda dos fornecedores de metalurgia para melhorar sua produção industrial destinada à Petrobras pode ser suprida pelos investimentos da Previ em FIPs ou direitos creditórios. “Como investidor, a Previ ganha dos dois lados, ou seja, ganha com a garantia de melhor fornecimento à Petrobras e também pelos resultados dos investimentos feitos nas empresas fornecedoras”.

O exame de cenários não lineares, acredita o diretor, estimula a reflexão sobre a possibilidade de eventos futuros e incentiva a busca de alternativas. “A Shell já fazia isso no início da década de 1970 e foi a melhor preparada na ocasião para enfrentar a crise do petróleo”.

Novas tendências

De acordo com a atual estrutura para a definição de diretrizes de investimentos da Previ, a diretoria de Planejamento é responsável por estudar e propor as políticas que irão orientar a gestão de ativos, com ênfase principalmente na alocação de recursos, análise de risco, aderência às necessidades de liquidez e solvência dos planos e programação orçamentária.

Dentro desse modelo, há uma gerência específica para cuidar das políticas de investimentos e cenários – GEPOC – que trata de elaborar e formular a política e as diretrizes de investimentos; elaborar e formular a matriz de atratividade setorial, projetar variáveis e cenários macroeconômicos, políticos e financeiros, além de identificar e propor as oportunidades de novos negócios. “No âmbito dessa gerência são feitos os estudos de longo prazo e as projeções, procurando incorporar pontos como, por exemplo, as novas tendências tecnológicas e outras variáveis fora do cenário macroeconômico e que possam ter impacto relevante sobre os resultados dos investimentos”.

A questão das mudanças tecnológicas envolve basicamente a capacidade de antecipar tendências e identificar tanto os setores mais atraentes para investir como aqueles em que chegou o momento de desinvestir. “Em telefonia celular, por exemplo, isso é fundamental, como mostra a demanda de mercado pelo smartphone”, observa o diretor. A partir dos relatórios setoriais, será preciso trabalhar no acompanhamento das empresas de que a Previ participa para antecipar e otimizar resultados. As variáveis envolvidas englobam desde os efeitos das mudanças climáticas até as novas tendências comportamentais.

Para assegurar o acompanhamento de tantos aspectos com eficiência, a Previ contratou uma equipe de professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultores externos. Entre as variáveis mais importantes, Vitor Paulo destaca a preocupação com as políticas de pagamento de dividendos das empresas em que a Previ investe, o que exige inclusive um trabalho permanente de qualificação dos conselheiros que atuam junto a essas empresas. “Embora as linhas gerais da atuação dos conselheiros não entrem diretamente na política de investimentos, elas são observadas com atenção”.

Do ponto de vista das empresas participadas, a integração entre as diretorias de Planejamento, Investimentos e Participações é um trunfo indispensável para garantir maior sintonia com os objetivos estratégicos da Previ, afirma o diretor. “Estamos procurando integrar estudos, de modo que os nossos conselheiros estão bem municiados de informações e fazemos periodicamente chats com eles – já foram três chats em 2010 – fazendo apresentações e dialogando com a experiência dessas pessoas, o que permite um melhor retorno e acompanhamento”.

Análise setorial

A análise setorial é um dos aspectos essenciais para a elaboração da matriz de atratividade das aplicações. “O objetivo é antecipar eventuais problemas de alguns setores de modo a estarmos preparados para enfrentar futuras mudanças nos níveis de risco”, diz o diretor.

No mercado imobiliário, por exemplo, os setores que são locatários de edifícios importantes na carteira da Previ serão monitorados de muito perto, permitindo uma rápida reprogramação sempre que for antecipado algum problema. A diretoria de Risco está incorporada a essa gerência e cuida da elaboração e formulação da política e dos processos de gestão de riscos, gerindo o processo dos seguintes riscos: de mercado dos segmentos de renda fixa e renda variável; de operações com participantes e assistidos; do passivo atuarial; de crédito de instituições financeiras; e de crédito de instituições não financeiras.

As análises macroeconômicas e setoriais alimentam o ALM e os processos de riscos que, por sua vez, retroalimentam a política de investimentos. Ainda como parte da área de Planejamento, há uma gerência de Estratégia para Liquidez e Gestão de Ativos e Passivos –GECAP – responsável por gerir o processo de gestão integrada de ativos e passivos – ALM; gerir o processo de riscos corporativos de empresas e riscos corporativos de investimentos imobiliários, além de gerir o processo de planejamento tático-operacional.

Segregação e atualização

A segregação de funções é uma característica fundamental no planejamento de investimentos da Previ desde 1997, ou seja, quem planeja não executa. Nesse desenho, a diretoria de Investimentos é responsável pela gestão do programa de investimentos, avaliação e negociação dos ativos que compõem os recursos garantidores e outras reservasgeridas pela entidade. Essa diretoria é composta pelas gerências de Operações Financeiras, de Análise Técnica, de Investimentos Imobiliários, de Mercado de Capitais e de Investimentos Estratégicos. Outro aspecto relevante, diz Vitor Paulo, é a sintonia com o que acontece em outros países e desde 1994 a política de investimentos da entidade procura o aprimoramento por meio do acompanhamento do que acontece nos fundos de pensão no cenário internacional. “Checamos permanentemente o que acontece lá fora em termos de ferramentas de avaliação de risco, ALM, governança, etc, para estarmos sempre atualizados em relação aos principais fatores-chave para as decisões de investimento”.

Para aplicar o novo conceito e fazer com que ele entre na rotina, Vitor Paulo afirma que será preciso trabalhar bastante uma série de aspectos qualitativos de acompanhamento e ferramentas para alinhar a estratégia corporativa à elaboração da política de investimentos. “Qualquer alerta pode servir para a revisão na elaboração da política e isso tem que entrar na rotina, é preciso usar a análise de risco para simular eventuais cenários futuros de estresse de modo a desenvolver um colchão de liquidez para evitar a venda de ativos em momentos inadequados”.

O risco de cada plano

Os principais conceitos de Supervisão Baseada em Riscos têm sido antecipados pela Previ, diz o diretor, destacando as regras de solvência, a gestão integrada de riscos e a realidade dos riscos associada a cada plano de benefícios. Até porque observar a estratégia corporativa de cada plano e suas circunstâncias é uma diretriz fundamental de governança para as decisões de investimentos, lembra Vitor Paulo. Para o plano de Benefício Definido da Previ, que estima pagar R$ 7 bilhões em benefícios em 2010, o ALM é uma ferramenta absolutamente relevante.

Ao mesmo tempo, o plano de Contribuição Definida, criado em dezembro de 1997 e que levou dez anos para atingir seu primeiro R$ 1 bilhão de ativos, atualmente já cresceu para R$ 2 bilhões. “O plano CD é muito importante para o futuro da Previ e seu crescimento significativo exige muito de planejamento de investimentos porque os resultados estão diretamente ligados ao benefício dos participantes”. Estudos mostram que esse plano já vai pagar agora acima da meta esperada, afirma o diretor. Outro desafio está nos perfis de investimento, cuja implementação exige maior nível de sofisticação nas decisões já que o próprio participante passa a definir suas escolhas. A partir de agosto a Previ vai implementar com mais força o programa de educação previdenciária de seus participantes porque a política de investimentos tem que estar em sintonia com a idade – por conta do conceito ciclo de vida – e com as expectativas dos participantes.

Fonte: Revista Fundos de Pensão

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