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Estado vai bancar 77,5% da usina de Belo Monte

terça-feira, 13 de julho de 2010

Investimento estatal cresceu com a entrada de fundos de pensão

Documentação da sociedade que irá cuidar da construção e da operação da usina será entregue hoje à Aneel

LEILA COIMBRA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O peso do Estado na construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, chegará a 77,5% do investimento total, orçado entre R$ 19 bilhões e R$ 25 bilhões.

A participação estatal direta e indireta cresceu com a entrada de fundos de pensão ligados a empresas federais, como Petros (Petrobras), Previ (Banco do Brasil) e Funcef (Caixa Econômica Federal), além do Fundo de Investimento FGTS, administrado pela CEF, conforme antecipado pela Folha.

Originalmente, a fatia do governo era minoritária, de 49,98%, e se concentrava no grupo Eletrobras. Os 50,02% majoritários estavam divididos entre investidores privados das áreas de construção e engenharia e empresas interessadas na produção de energia para consumo próprio (autoprodutores).

O presidente do Norte Energia e diretor da estatal Chesf (subsidiária da Eletrobras), José Ailton, disse que na nova composição a fatia dos fundos de pensão será de 27,5%, aproximadamente.

Ontem, em Brasília, executivos da Eletrobras se reuniram para definir a composição final da sociedade.

A Funcef deterá 2,5% da sociedade e mais 1,5% de participação de forma indireta, por meio do fundo Fip Cevix, do qual é cotista em parceria com a Engevix.

A Previ terá 10% de Belo Monte por meio da 521 Participações- que é a empresa dona da gigante do setor elétrico Neoenergia.
Já o FI-FGTS entrará por meio da J. Malucelli Energia, da qual detém 40% das ações, e também de forma direta. O Petros deverá ficar com 10% do total da usina.

A participação privada, antes de mais de 50% do projeto, será reduzida para 22,5%, dos quais 10% destinados aos autoprodutores.

CONSTRUTORAS

Já as construtoras, que anteriormente tinham 40% do consórcio, reduzirão sua participação para 12,5%. Pelas regras do edital, empresas do setor de construção não podem ter mais de 20% de participação no investimento.

Originalmente, o consórcio Norte Energia tinha participação de sete empreiteiras: Queiroz Galvão, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Serveng, J.Malucelli Construtora, Contern Construções e Cetenco Engenharia. Agora, serão oito, com a OAS.

Todas terão sua participação reduzida, mas abocanharão contratos das obras civis, orçadas entre R$ 19 bilhões e R$ 25 bilhões. Alguma das três grandes construtoras que estudam há 15 anos o projeto (Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht) deverá entrar nas obras civis.

Tudo indica que será a Andrade, já que Camargo e Odebrecht abandonaram a disputa antes do leilão, em abril.

Investidores privados de peso, como Gerdau, CSN e Braskem, que negociavam sua participação como autoprodutores, ficaram de fora.

A documentação da Sociedade de Propósito Específico (SPE), que será responsável pela construção e pela operação da usina, deverá ser entregue hoje à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), antecipando em três dias o cronograma original.

Pesquisador do ITA fala em prejuízo de US$ 8 bi

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

A usina hidrelétrica de Belo Monte dará um prejuízo aos cofres públicos que pode chegar a US$ 8 bilhões, se todas as variáveis sociais e ambientais forem incluídas.

A conta é de um pesquisador do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), que fez uma análise de custo/benefício da megausina.

O estudo, porém, foi criticado por um ex-presidente da Eletrobras, que diz ver nele um “viés antibarragem”.

Em artigo publicado no periódico “”Water Alternatives”, Wilson Cabral de Souza Júnior fatora uma série de custos “”externos” da usina: sobrepreço, atrasos na construção, geração de energia menor do que o previsto e custos sociais -como perda de qualidade da água.

Ele calcula também o que a usina deixaria de gerar de renda por fixação de carbono, já que sua construção induzirá desmatamento.
Esse carbono florestal poderia ser negociado internacionalmente num mecanismo de Redd (Redução de Emissões por Desmatamento), segundo o estudo.

“É uma figura de mérito”, reconhece Souza Júnior, já que o Redd ainda não existe -depende da aprovação do novo acordo do clima.

Ele diz, no entanto, que a análise de viabilidade econômica da usina deve considerar um período de 50 anos, prazo no qual faz sentido falar em carbono evitado.

Os números foram usados para alimentar um programa de computador que traçou dois cenários: no primeiro, otimista, a usina traz um benefício líquido de US$ 670 milhões; no segundo, dá um prejuízo de US$ 3 bilhões ao longo de 50 anos.

Isso mostrava que Belo Monte, tal como foi concebida, tinha 28% de chance de não dar prejuízo.

CONTA REFEITA

A conta, porém, foi refeita pelo próprio pesquisador, a pedido da Folha, considerando a nova estimativa de custo da usina divulgada pelo governo -US$ 10 bilhões.

“Neste caso, a inviabilidade é total”, afirmou Souza Júnior. O prejuízo, no melhor cenário, é de US$ 1,5 bilhão, e no pior, US$ 7,9 bilhões.

Ele afirma que a única forma de viabilizar Belo Monte é aumentando o endividamento público ou construindo mais usinas a montante da barragem, para regular o fluxo do rio Xingu e evitar que a usina fique seis meses por ano sem gerar energia, como se prevê que vá ocorrer.

“MILITANTE”

“É um artigo militante, apesar da aparência técnica”, critica Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e ex-presidente da Eletrobras.

Segundo ele, o governo está comprometido a não construir mais barragens rio acima no Xingu. “”O estudo diz, “Ah, mas isso pode ser mudado”. Não é argumento, isso vale para qualquer coisa.”

Mas é na análise de custos que está a principal crítica de Pinguelli. “”Uma obra desse tamanho com capital intensivo só pode ser feita com uma taxa de retorno menor”, diz.

“Não dá para imaginar um metrô com retorno de 10%, 15%. Essa obra tinha de ser da Eletrobras, mesmo.”

Pinguelli diz que endividamento não é problema neste caso. “Toda empresa opera endividada.”

Fonte (Texto, Infográfico): Folha de S. Paulo

Usina hidrelétrica de Belo Monte pode se tornar estatal

sábado, 10 de julho de 2010

Ramona Ordoñez

RIO – A polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte, que será construída no Rio Xingu, no Pará, e que seria um projeto privado, deverá se tornar mais estatal do que nunca. A participação do governo federal no megaprojeto, com investimentos estimados entre R$ 19 bilhões e R$ 25 bilhões, poderá pular dos 49,98% previstos inicialmente, para até 72,38%, segundo cálculos do especialista Adriano Pires Rodrigues.

Isso acontecerá se forem confirmadas as participações dos três maiores fundos de pensão de empresas estatais: Previ, do Banco do Brasil; Funcef, da Caixa Econômica; e a Petros, da Petrobras. Segundo fontes do mercado, até esta sexta-feira, a adesão desses três novos sócios de peso estaria fechada: a Funcef entraria com 7,5% e a Petros com outros 10%.

Previ participará via empresa Neo Energia

Já a participação da Previ ocorreria de forma indireta, por meio do grupo Neo Energia (de geração e distribuição) com 10%. A Previ tem 49% do capital do grupo Neo Energia.

O consórcio vencedor do leilão de Belo Monte, realizado em abril, não quis comentar o assunto. Mas uma fonte explicou que o consórcio tem até o dia 15 para apresentar à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a formação da Sociedade de Propósito Específico (SPE), que será responsável pela construção e pela operação da usina.

- As negociações para a constituição dos sócios na SPE ainda não foram concluídas. Mas queremos enviar à Aneel a documentação da formação do grupo antes do fim do prazo – disse a fonte.

Nesta sexta-feira, a Neo Energia teria se antecipado e entregado a documentação à Aneel.

Segundo fontes, a decisão da entrada dos fundos de pensão Previ, Funcef e Petros – que, apesar de serem empresas privadas, são geridos e controlados por estatais – seria do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para garantir a viabilidade do projeto.

Na parcela privada da SPE, responsável pela construção e operação da usina, outros 10% ficariam com um grupo de empresas autoprodutoras de energia e outros 12,5%, com construtoras. A participação das estatais do grupo Eletrobras será de 49,98%.

Fonte: O Globo

Previ, Petros, Funcef e FI FGTS são os novos sócios de Belo Monte

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Josette Goulart, de São Paulo

A nova sociedade do consórcio que vai ter a concessão da usina hidrelétrica de Belo Monte já está fechada. O FI FGTS e os fundos de pensão Previ, Petros e Funcef vão ter direta ou indiretamente, por meio de empresas que participam, cerca de 30% da sociedade. A única participação direta será do fundo dos funcionários da Petrobras, que ficam com 10%. A Previ também terá 10% de Belo Monte, mas por meio da 521 Participações – que é a empresa dona da Neoenergia. O FI FGTS entrará por meio da J. Malucelli Energia, onde detém 40% das ações e a Funcef, por meio da Cevix, empresa que o fundo de pensão dos funcionários da Caixa tem em parceria com a Engevix.

Segundo fontes próximas ao consórcio Norte Energia, faltam apenas alguns detalhes a serem acertados, como o percentual que ficará com a Cevix. Em princípio ficou acertado uma participação de 5% em Belo Monte para a empresa, mas tende a ser elevado para 7,5%. Assim a construtora Queiroz Galvão reduziria a participação de 5% para 2,5%.

O autoprodutor do empreendimento será a Gaia Energia, empresa de geração do grupo Bertin que também é autoprodutora. Existe a negociação para que algumas siderúrgicas do Pará entrem nessa parcela, como está sendo negociado com a Sinbras. A CSN que negociava participação fica de fora.

Nessa nova formação, as construtoras Cetenco, Contern, Galvão Engenharia, J. Malucelli Construtora, Mendes Junior e Serveng reduzem suas participações de 30% para 10% do empreendimento. O interesse dessas construtoras está muito focado nos contratos de construção da usina. Mas elas apoiam a contratação de uma das três grandes construtoras, que estudam há 15 anos o projeto.

A Camargo Corrêa e a Odebrecht vão apresentar cotações de preços para diferentes partes da obra. Mas no consórcio, o apoio é para que a Eletrobras feche com a Andrade Gutierrez. Caso contrário, as pequenas construtoras querem ter direito de preferência, mesmo que Camargo e Odebrecht apresentem cotações melhores. Mesmo dentro do governo existe preferência pela contratação da Andrade Gutierrez. Isso porque Camargo e Odebrecht sequer participaram do leilão como investidoras, abandonando a disputa alguns dias antes criando forte pressão para que a licitação não fosse feita.

Fontes próximas ao governo dizem que a atuação dessas empreiteiras no processo do leilão foi considerada uma afronta que deve levar agora a obra para o colo da Andrade Gutierrez. A construtora mineira se manteve na disputa junto com Vale, Neoenergia e Votorantim. Uma importante fonte do governo conta que a pressão da Camargo e Odebrecht continuou mesmo depois de terem desistido da disputa, quando entraram na sociedade com a Andrade para formar o consórcio construtor.

As empreiteiras queriam manter o preço do chamado EPC (que faz a engenharia, fornecimento e construção de uma obra) no valor de R$ 31 bilhões, o que inviabilizava a tarifa de R$ 83. Na véspera da disputa, o governo ainda tinha dúvidas se iria conseguir realizar a licitação e chegou a pensar em não cassar a liminar que adiava a disputa. Mesmo depois da vitória do consórcio liderado por Chesf e Bertin, o governo ainda temia pelo futuro da usina. Foi então que Eletrobras deixou as portas abertas, inclusive para Camargo e Odebrecht, e foi angariando novos sócios. A sociedade agora está fechada e falta acertar os contratos de construção e fornecimento de equipamentos, que serão feitos separadamente.

Fonte: Valor Econômico

O fator Neoenergia na sucessão da Previ

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Post do blog Radar Online, do jornalista Lauro Jardim, desta data:

“Sérgio Rosa não conseguiu fazer o seu sucessor na presidência da Previ. Queria no cargo Joílson Ferreira, seu diretor de Participações. Mas a dupla Guido Mantega e Aldemir Bendini, presidente do Banco do Brasil, conseguiu que Lula apoiasse outro nome, Ricardo Flores, um dos vices do BB.

Entre os motivos que pesaram para a derrota de Rosa está a sua posição em relação à venda da Neoenergia (que tem a Previ em seu grupo de controle) para a Camargo Corrêa. Rosa queria estudar mais o negócio antes de concluí-lo.

O governo, porém, queria pressa na tomada da decisão que, aliás, ainda não aconteceu. Possivelmente, o processo andará mais célere a partir de junho, quando Rosa já será um ex-presidente da Previ.”

Previ na mídia

segunda-feira, 15 de março de 2010

Na ponta do lápis

A decisão de um tribunal arbitral que obriga sócios da Valepar, que controla a Vale, a entregarem ao grupo Opportunity, de Daniel Dantas, ações da empresa que podem chegar a até R$ 3 bilhões está tendo o efeito de uma bomba na Previ, o maior fundo de previdência do país, derrotado na disputa.

Ainda que tentem anular a sentença dos árbitros na Justiça, os fundos podem ser obrigados a provisionar, ou seja, a reservar, em seu balanço, a quantia bilionária até o dia do veredicto final. O valor exato da bolada ainda será definido.

HOMENS DE PRETO

“O clima na Previ é de luto”, diz um profissional envolvido na discussão. Os três árbitros -inclusive Gustavo Tepedino, indicado pelos fundos e pela Bradespar (leia-se Bradesco), também derrotada- votaram unanimemente em favor do Opportunity.

Uma eventual briga na Justiça para anular a decisão promete ser longa. A ideia prosperou com a divulgação de que um dos árbitros, Francisco Rezek, já atuou para o Opportunity. Ele diz que as partes sabiam do fato antes da sentença e que nunca se opuseram à sua atuação.

NA LATA

Rezek deve se reunir nesta semana com Teophilo de Azeredo Santos, presidente do Centro Brasileiro de Arbitragem, já que polêmicas como essa podem afetar a credibilidade da arbitragem no país. “Tudo o que eu queria é que as pessoas que estão por trás disso [a ameaça de pedir a anulação da sentença arguindo a sua suspeição] mostrassem a cara”, diz. Fundos e Bradespar não se manifestam.

Fonte: Mônica Bergamo (Folha de S. Paulo)

Casamento forçado

A Previ, como se sabe, não gosta da ideia de casar a Neoenergia, controlada pelo fundo, com a CPFL, controlada pela Camargo Corrêa.

O casório, que tem adeptos no Olimpo lulista, visa a criar uma superelétrica privada sob o comando da empreiteira.

É que…

Na visão do pessoal da Previ, não é justo a CPFL engolir a Neoenergia. Alegam que a saúde financeira da sua empresa, que tem em caixa uns R$ 4 bi, é melhor que a da Camargo.
É. Pode ser.

Fonte: Ancelmo.com

Fundos de pensão: governo defende sigilo

O jornal abre a sua coluna política com a informação de que “o governo se move para impedir a reabertura de arquivos da CPI dos Correios relativos aos fundos de pensão Petros, Previ e Funcef. O objeto de desejo da oposição são os sigilos das corretoras que compraram para o trio cerca de R$ 25 milhões através de um fundo de direitos creditórios da Bancoop, cooperativa suspeita de desviar recursos para campanhas do PT”.

Fonte: Suporte Educacional Online (Fonte primária da informação Folha de S. Paulo)

Bons e maus negócios: quem decide os investimentos dos fundos de pensão?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Permitam-me retomar um tema abordado no dia 17 de junho de 2009 que, por coincidência, era uma sexta-feira, como hoje.

O título do post era “Mudanças nas regras de investimento dos fundos de pensão” – na época comentava-se que ocorreriam mudanças, que de fato vieram a acontecer pouco depois, nos limites de aplicação dos fundos.

O “gancho” para o comentário era uma nota publicada na imprensa dando conta de que o Governo determinara que os fundos deveriam investir no projeto do chamado “Trem Bala”, o qual, aliás, parece que tomou chá de sumiço. (Clique aqui para ler o referido post na íntegra)

Fiz uma afirmativa na época que retomo neste momento diante de outras notícias que comentarei a seguir.

O que disse eu então: “Bons negócios podem, em tese, estar associados a projetos do Governo ou da iniciativa privada. Negócios ruins também. Mas será necessário analisar cada negócio sob o ponto de vista estritamente técnico, qualquer que seja sua origem. Nenhum fundo de pensão pode comprometer os recursos dos seus associados apenas por haver sido ‘escalado’ pelo Governo para participar de um determinado empreendimento.”

E por que volto a este tema? Por conta de duas notícias, aliás reproduzidas neste BBlog. A primeira delas diz que o Governo estaria interessado em que a empreiteira Camargo Corrêa constitua uma “Superelétrica”, adquirindo o controle da Eletropaulo, da AES Sul e da Neoenergia – setor em que o nosso fundo de pensão tem pesados investimentos. Diz a notícia que “segundo pessoas próximas às transações ouvidas pela Folha, o presidente da Previ, Sérgio Rosa, abriu negociação com a Camargo Corrêa por interferência direta do Planalto.” (Clique aqui para saber mais)

A outra notícia – que trata da construção da usina Belo Monte – diz que “garantida a licitação da usina de Belo Monte, o grande obstáculo agora é a formação de pelo menos dois consórcios para garantir a disputa, que é ancorada na menor oferta de tarifa de energia. Tudo indica que as subsidiárias da Eletrobrás – especialmente Furnas e Eletronorte – e os fundos de pensão – ao menos Previ e Funcef – serão divididos pelo governo para garantir essas duas frentes no leilão.” (Clique aqui para saber mais)

É importante ressaltar que os fundos de pensão não podem se divorciar dos interesses do País, mas também é muito válido lembrar que interesses de Governos raramente coindidem com os interesses da Nação. Na grande maioria das vezes em que os fundos de pensão decidiram seus investimentos pressionados pelos Governos de plantão os resultados foram negativos. É da natureza dos Governos botar olho grande no patrimônio dos fundos de pensão, mas é obrigação dos seus legítimos proprietários – os participantes – ficar atentos para impedir maus negócios.

Repito que bons negócios podem, em tese, estar associados a projetos do Governo ou da iniciativa privada. Negócios ruins também. Mas reafirmo que “nenhum fundo de pensão pode comprometer os recursos dos seus associados apenas por haver sido ‘escalado’ pelo Governo para participar de um determinado empreendimento.”

Contra o olho grande dos Governos a melhor defesa é o olho vivo dos participantes.

Governo quer fundos de pensão estatais nos consórcios que disputarão Belo Monte

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Governo também usará subsidiárias da Eletrobrás para leilão da usina ter concorrência. Funcef negocia com Odebrecht

Geralda Doca e Vivian Oswald

Garantida a licitação da usina de Belo Monte, o grande obstáculo agora é a formação de pelo menos dois consórcios para garantir a disputa, que é ancorada na menor oferta de tarifa de energia. Tudo indica que as subsidiárias da Eletrobrás – especialmente Furnas e Eletronorte – e os fundos de pensão – ao menos Previ e Funcef – serão divididos pelo governo para garantir essas duas frentes no leilão.

Até porque a liderança das empreiteiras no processo causa desconfiança e desistência entre os demais agentes privados.

Os fundos de pensão abriram ontem seus planos. O presidente da Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), Guilherme Lacerda, informou que já está negociando parceria com a Odebrecht. Ele afirmou que a entidade assinou um termo de compromisso com a construtora para decidir as condições em que vai participar do leilão. A Funcef tem uma disponibilidade de R$ 600 milhões, dos R$ 2 bilhões que vai aplicar no setor de infraestrutura em 2010.

- Temos disposição em entrar (em Belo Monte). A hidrelétrica é um investimento importante – disse Lacerda.

- É saudável a concorrência e não vamos entrar com Petros e Previ neste projeto.

A diretoria da Previ (dos funcionários do Banco do Brasil) se reuniu ontem e informou que já começou a discutir as oportunidades abertas por Belo Monte.

O fundo estuda parceria com uma construtora. A Petros anunciou que também já vinha estudando entrar em Belo Monte e, agora que saiu o licenciamento ambiental, vai correr para entrar no empreendimento – individualmente ou em parceria com fundos.

Funcef avalia entrar no consórcio de Jirau

A legislação permite que os fundos de pensão apliquem em infraestrutura até 20% de seu patrimônio líquido. As principais entidades estão se movimentando para o governo permitir a elas oferecerem títulos do governo como garantia até o valor da participação nesse empreendimento. Hoje, isso não é permitido.

De olho em Belo Monte, representantes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) procuraram os responsáveis pela fiscalização dos fundos de pensão no governo no fim de 2009, preocupados em estimular a concorrência. O órgão regulador queria detalhes sobre como as entidades investem e os limites.

No edital de Belo Monte não poderão concorrer fundos deficitários ou com dívidas.

Lacerda afirmou ainda que a Funcef não participou do leilão da usina de Jirau, no rio Madeira, em 2009, mas mudou de ideia e está negociando a compra de metade da participação da Camargo Corrêa na usina.

Vale e Neoenergia podem disputar Belo Monte juntas

No setor privado, as construtoras Camargo Corrêa e Odebrecht já avisaram que entrarão juntas no leilão de Belo Monte.

Agentes de mercado esperam que a rival Andrade Gutierrez lidere outro grupo. Segundo fontes do setor, o processo está muito concentrado nas mãos das empreiteiras – até porque elas comandaram os estudos de viabilidade técnica e econômica – e há desconfiança dos grandes operadores do mercado.

Os atores se queixam da falta de informações, que, em última instância, consideram falta de transparência. A questão atrapalha conversas entre empresas que poderiam formar consórcio. Seria o caso do grupo Vale Energia, que estava nascendo da união de Vale e Neoenergia.

Do ponto de vista econômico, o principal desafio é o alto risco do empreendimento, pois Belo Monte é um gigante encravado na Amazônia. O investimento é estimado pela iniciativa privada em ao menos R$ 30 bilhões – o governo estima o projeto entre R$ 17 bilhões e R$ 20 bilhões.

Além disso, foram impostas condicionantes socioambientais pelo órgão licenciador.

- Este pode ser um empecilho – diz o presidente da consultoria Andrade & Canellas, João Carlos Mello, ressaltando que o orçamento será o determinante da demanda no leilão.

Fonte: O Globo

Investimentos da Previ: “Superelétrica” terá mais de um terço do mercado brasileiro

domingo, 31 de janeiro de 2010

Com apoio do Planalto, Camargo Corrêa pretende comprar o controle da Eletropaulo, da AES Sul e da Neoenergia

Governo atua para formar grandes empresas de capital nacional, tendo o BNDES como o principal financiador dessas operações no país

LEONARDO SOUZA
LEILA COIMBRA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A empreiteira Camargo Corrêa recebeu o aval do Palácio do Planalto para constituir uma superelétrica na área de distribuição de energia.

A construtora assumiu no ano passado o comando da CPFL e conta agora com o apoio do governo para comprar o controle da Eletropaulo e da AES Sul, além de adquirir da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e do BB a sua participação no grupo Neoenergia.

Se concretizadas as duas operações, a empreiteira terá nas mãos uma gigante que abastecerá mais de um terço do mercado nacional, incluindo praticamente todo o Estado de São Paulo -o mais rico do país- e três Estados do Nordeste, região atualmente com o maior potencial de crescimento.

Segundo pessoas próximas às transações ouvidas pela Folha, o presidente da Previ, Sérgio Rosa, abriu negociação com a Camargo Corrêa por interferência direta do Planalto.

Como a Previ possui participação relevante tanto na CPFL (31% das ações ordinárias, sendo 23% delas ligadas ao bloco de controle) quanto na Neoenergia (49% do capital total), há conflito de interesses.

Hoje os representantes da Previ precisam sair das salas de decisões da CPFL quando são discutidos detalhes sobre as negociações em curso para aquisições de outras distribuidoras de energia.

A fusão com a CPFL resolveria o conflito, porém a Previ passaria a ser minoritária na nova empresa, perdendo a gestão da Neoenergia. Marcelo Corrêa, atual presidente do grupo, é indicação do fundo de pensão do BB.

Grupos nacionais

Não é a primeira vez que o governo atua para formar grandes empresas de capital nacional, tendo o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como o principal financiador dessas operações.

Entre 2008 e 2009, o banco estatal injetou quase R$ 7 bilhões para viabilizar a incorporação da Brasil Telecom pela Oi. Em 2007, o BNDES comprou cerca de R$ 4 bilhões em ações (a valores de 2009) dos frigoríficos JBS e Bertin, o que possibilitou a fusão dos dois grupos no ano passado.

No caso da BrT-Oi, o presidente Lula ainda teve que editar um decreto sob medida para permitir a união das duas empresas.

O setor elétrico está na esfera de influência direta da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata à sucessão presidencial. Ela comandou a pasta de Minas e Energia no primeiro mandato do presidente Lula. Todos os grandes temas da área passam por sua mesa.

Concentração

A formação da superelétrica não enfrentará impedimento legal. Em 2008, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) derrubou a última barreira regulatória contra concentrações no setor. A operação, contudo, teria de passar também pelos órgãos brasileiros de defesa da concorrência.

Até então, a legislação limitava a participação dos investidores nas concessionárias da seguinte forma: até 20% no mercado nacional e até 25% nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Norte e no Nordeste a limitação era de 35%.

Segundo Jerson Kelmann, ex-diretor-geral da Aneel, a resolução 299, de 8 de janeiro daquele ano, extinguiu os tetos existentes.

As negociações para a fusão com a Neoenergia estão bem avançadas. O outro sócio da empresa, a espanhola Iberdrola, sofreu bastante com a crise financeira internacional e está bastante descapitalizado. Assim, dificilmente teria condições e interesse em comprar as participações da Previ e do Banco do Brasil.

No caso da Eletropaulo e da AES Sul, entretanto, a Camargo Corrêa ainda precisa superar alguns obstáculos.

As duas distribuidoras estão sob o guarda-chuva da empresa AES Brasiliana, que existe só no papel. O BNDES tem 53,85% dessa empresa, mas a operação das duas concessionárias (e também da geradora AES Tietê) é da americana AES.

Para vender sua participação na Brasiliana, o BNDES contratou o Citibank para elaborar a modelagem da operação. Pela legislação atual, o BNDES não pode negociar diretamente com nenhuma companhia interessada. A oferta das ações tem que ser feita em leilão.

Além disso, a AES tem direito de preferência na parte do banco e, neste momento, está capitalizada -a matriz recebeu uma injeção de US$ 2 bilhões do fundo soberano chinês, que adquiriu 15% da AES Corp.

Com o apoio do governo, contudo, a Camargo Corrêa espera entrar num acordo com os norte-americanos para que eles aceitem ceder o controle das duas distribuidoras. No passado, a AES chegou a anunciar que tinha a intenção de sair do país. Mas agora o discurso da empresa é o de permanecer ou mesmo de aumentar a sua presença no Brasil.

O interesse da Camargo se concentra na distribuição. No caso de uma união entre CPFL, Eletropaulo e Neoenergia, a maior sinergia estaria na ligação entre as duas primeiras, principalmente devido à proximidade geográfica, o que facilitaria o deslocamento de equipes para a manutenção das redes, por exemplo.

A CPFL está presente na grande maioria dos municípios do interior paulista. Já a Eletropaulo congrega a região metropolitana.

Fonte: Folha de S. Paulo

Previ reestrutura participações em empresas do setor elétrico

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Por Josette Goulart, de São Paulo

Foi num evento na Bahia que veio a primeira declaração pública dos gestores da Previ sobre a reorganização de suas participações no setor elétrico. Disseram eles, há menos de um mês, que teriam de se desfazer de um de seus dois principais ativos no setor de energia para evitar futuros conflitos. Assim, ou eles vendem os 31% que possuem na CPFL Energia, avaliado pela própria Previ em R$ 5 bilhões, ou os 49% na Neoenergia, avaliado em R$ 6,2 bilhões. Uma semana depois, o presidente da CPFL Energia, Wilson Ferreira Junior, declarava aos jornais que a tendência era que Neoenergia e CPFL fossem parceiras no leilão de Belo Monte, que será a maior usina hidrelétrica a ser construída no país depois de Itaipu.

Em entrevista ao Valor, o diretor de participações da Previ, Joilson Ferreira, diz que ainda é possível manter essas duas participações por mais alguns anos sem grandes conflitos de interesse. “Essa situação precisa ser resolvida apenas no médio prazo, quando de fato os ativos à venda tanto de geração quanto de distribuição ficarão mais escassos”, diz Ferreira. Na parte de distribuição de energia, o diretor da Previ destaca o fato de hoje as duas companhias estarem geograficamente distantes. Em geração, ambas constroem hidrelétricas em lugares diferentes e nos grandes projetos hidrelétricos elas podem se unir, diz Ferreira.

Apesar de apostar numa solução em médio prazo, que ele define como cinco anos, algumas situações reais começam a mostrar que talvez em breve a Previ tenha de tomar uma decisão. Hoje, por exemplo, os representantes da Previ precisam sair das salas de decisões da CPFL quando vai se discutir detalhes sobre compra de distribuidoras de energia. E isso tem acontecido com frequência.

Com a crise financeira e o fim do segundo ciclo de revisão tarifária, que reduziu os valores cobrados na maioria das regiões, muitos estrangeiros estão colocando os ativos à venda no país. Algumas outras companhias privadas em dificuldades também podem ter de se desfazer de empresas. E tanto CPFL quanto Neoenergia estão de olho nessas oportunidades, em busca da consolidação do setor de distribuição, que tem 64 empresas espalhadas pelo país.

Além disso, desde que anunciou a intenção de se desfazer de um dos dois ativos, a Previ já tomou algumas medidas práticas. A empresa 521 Participações, que é dona das ações da Neoenergia e da CPFL, foi desmembrada e agora a Previ passará a deter participação direta na CPFL. A 521 vai manter apenas as ações da Neoenergia. Segundo o comunicado emitido pela 521, essa iniciativa já faz parte da reestruturação das participações do fundo de pensão em empresas do setor elétrico.

Sobre a escolha a ser feita pela Previ, existe uma aposta velada no mercado de que a opção do fundo seria sair da CPFL. Os dividendos da CPFL foram recebidos ao longo dos anos, enquanto a Neoenergia optou por manter caixa. O bloco de ações na CPFL também é menor do que na Neoenergia, onde inclusive a Previ tem hoje uma ação mais direta e efetiva. O próprio Joilson Ferreira é presidente do conselho de administração da empresa.

É fato também que algumas dificuldades recentes na sociedade com a Iberdrola vieram à tona. O grupo espanhol decidiu a poucos dias da conclusão da compra dos ativos da Terna Participações sair do negócio, por dificuldades vividas na Espanha. A empresa teve seu rating rebaixado e naquela semana apresentou resultados pouco promissores.

A saia justa com a Cemig, que acabou comprando sozinha a Terna, foi grande. Ferreira diz que será preciso fazer algumas mudanças na forma de atuar em próximos negócios. “Quem vai querer ser sócio hoje da Neoenergia em alguma aquisição com esse histórico”, diz Ferreira. Para isso se estuda uma alteração no acordo de acionistas e possivelmente qualquer nova parceria terá que ter um documento oficial assinado pela Iberdrola, com o comprometimento de que as possíveis aquisições serão concluídas.

Ferreira defende ainda que a empresa tenha a gestão toda feita por profissionais de mercado, sem ter indicação de um ou outro sócio. E o próximo passo na Neoenergia é lançar ações em bolsa de valores. Dessa forma, a Previ já pode também reduzir sua participação, sem perder o controle. É bom lembrar que o fundo tem prazo até 2014 para se enquadrar nas regras de aporte de capital em renda variável.

Fonte: Valor Econômico

Neoenergia planeja seu crescimento em geração

terça-feira, 25 de agosto de 2009

De Fernando de Noronha (PE)

A intricada construção da usina Tubarão, em Fernando de Noronha, faz parte de uma série de outros desafios que o grupo Neoenergia deve enfrentar com mais frequência daqui para a frente. Isso porque os negócios de geração de energia no Brasil devem ganhar mais peso dentro da empresa nos próximos anos.

“O foco da Neoenergia agora é crescer no segmento de geração”, diz Marcelo Corrêa, presidente do grupo que é controlado pela espanhola Iberdrola, Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) e pelo próprio Banco do Brasil.

Hoje 83% do faturamento líquido está concentrado em distribuição, por meio da Celpe (Pernambuco), Coelba (Bahia) e Cosern (Rio Grande do Norte). Foram R$ 338 milhões no segundo trimestre de 2009. É uma atividade de peso, mas cujo lucro líquido caiu 6%, para aumento de 2,4% da receita líquida. Já a geração, apesar de ainda ser uma parcela pequena, cerca de 13%, apresenta resultados mais animadores. Para alta de 24,6% da receita, o lucro subiu 96,7%. O restante da receita (4%) é da área de comercialização de energia.

Segundo Corrêa, o plano da empresa é dobrar o segmento de geração, que hoje está com 1,8 mil megawatts (MW). Desse total, atualmente, são 1,1 mil MW de capacidade instalada em projetos já existentes, e o restante está em construção, devendo ficar pronto até 2010. “Em quanto tempo isso vai acontecer é algo difícil de responder.” Isso porque a empresa pretende participar da disputa pela hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, com 11 mil MW de potência. O executivo, porém, não dá detalhes do consórcio que o grupo vem tentando formar para entrar na concorrência.

Corrêa não descarta o segmento de distribuição. Porém, ele diz que o maior foco agora é reduzir as perdas que as concessionárias possuem. Isso deve ocorrer principalmente na Celpe, que tem cerca de 7% de perdas não-técnicas, aquelas vindas do roubo de energia, por exemplo. Tanto na Coelba quanto na Cosern a evasão está em 2,5%.

A partir de setembro, a Celpe terá um novo presidente. No lugar de José Humberto Castro, que está na companhia há três anos, entra Luiz Antônio Ciarlini, que trabalha na empresa há 26 anos. (CM)

Fonte: Valor Econômico