Um Oscar, duas Palmas de Ouro em Cannes e o prêmio especial do Festival de Veneza. Estas credenciais deveriam ser suficientes para garantir ao cineasta Arne Sucksdorff um lugar de honra no Olimpo dos grandes diretores de cinema do mundo. Especialmente no Brasil, país cuja cinematografia ele ajudou a forjar, formando grande parte dos realizadores da geração do Cinema Novo. Entretanto, este realizador, considerado um dos mais importantes cineastas suecos, ao lado de Ingmar Bergman e Alf Sjoberg, tem sido injustamente esquecido. Agora, uma mostra vai realizar o que pode ser considerada a primeira grande retrospectiva do cinema do criador que levou para a Suécia o primeiro Oscar da história do país.
Ao longo de oito dias, serão exibidos seis longas, um média e sete curtas-metragens que promovem uma incursão do cinema de Sucksdorff. Com curadoria do cineasta e professor Sérgio Moriconi, a mostra Arne Sucksdorff – o sueco do Cinema Novo começa com a exibição do documentário Arne Sucksdorff: Uma Vida Documentando a Vida, da pesquisadora mato-grossense Bárbara Fontes. O filme tem 32 minutos de duração e foi finalizado em 2002. As filmagens percorreram cinco locações: Suécia, Rio de Janeiro, Cuiabá, Poconé e Pantanal. No dia 23, haverá um bate-papo com José Wilker, ex-aluno do histórico curso que Sucksdorff ministrou no Brasil, o cineasta Vladimir Carvalho e o curador Sérgio Moriconi. A mostra tem o apoio da Embaixada da Suécia no Brasil e do CTAV – Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura.
Serão exibidos os longas-metragens A Grande Aventura (1953), uma das obras mais consagradas de Arne; A Fera e a Flecha (1957); O Menino na Árvore (1969);Fábula/ Meu Lar é Copacabana (1964); Mr. Foubusch e os Pinguins (1971); e Mundo à parte (de 1975, feito em quatro episódios). A programação também incluirá os curtas Ritmos da Cidade (1948), Vila Indiana (1951), Uma História de Verão (1941), Vento do Oeste (1943), Semeadura (1943), Aurora (1945), Gaivota (1944), Sombras na Neve (1945), A Partida (1948), Jornada Escandinava (1950) e O vento e o Rio (1951).
Programação
Dia 16, terça
18h30 – Arne Sucksdorff – Uma Vida Documentando a Vida (Cor, 32’) + Um Conto de Verão (P&B, 18’)
20h00 – Fábula/ Meu Lar é Copacabana (P&B, 88’)
Dia 17, quarta
18h30 – Mundo à Parte I e II (cor, 60’)
20h00 – A Grande Aventura (P&B, 94’)
Dia 18, quinta
18h30 – Mundo à Parte III e IV (cor, 60’)
20h00 – A Fera e a Flecha (cor, 75’)
Dia 19, sexta
18h30 – Vento do Oeste (P&B, 18’) + O Vento e o Rio (P&B, 10’) + Vila Indiana (P&B, 27’) + Sombras na Neve (P&B, 11’)
20h00 – O Menino na Árvore (P&B, 85’)
Dia 20, sábado
16h00 – Mr. Forbusch e os Pingüins (cor, 101’)
18h00 – Vento do Oeste (P&B, 18’) + O Vento e o Rio (P&B, 10’) + Vila Indiana (P&B, 27’ + Sombras na Neve (P&B, 11’)
20h00 – Fábula/ Meu Lar é Copacabana (P&B, 88’)
Dia 21, domingo
16h30 – Arne Sucksdorff – Uma Vida Documentando a Vida (Cor, 32’) + Um Conto de Verão (P&B, 18’)
18h00 - A Grande Aventura (P&B,94’)
20h00 – O Menino na Árvore (P&B, 85’)
Dia 23, terça
18h00 – Mundo à Parte I e II (cor, 60’)
19h30 – Ritmos da Cidade (P&B, 18’) + Marimbás (P&B, 10’)
Sessão seguida de debate, com a participação do ator José Wilker
Dia 24, quarta
18h30 – Mundo à Parte III e IV (cor, 60’)
20h00 – Ritmos da Cidade (P&B, 18’) + Mr. Forbusch e os Pingüins (cor, 101’)
Sinopses
Longas-Metragens
A Grande Aventura (Det Stora Äventyret) – Brasil, 1953, P&B, 94’
Direção: Arne Sucksdorff
Dois irmãos encontram uma lontra aprisionada numa armadilha deixada por um caçador no meio da floresta. Os garotos resolvem salvar o animal, que batizam de Otti, e o levam para o porão de casa. Gastam suas economias comprando comida para ele. Na primavera, Otti não resiste aos apelos da natureza e volta para a floresta. No filme, Sucksdorff muitas vezes faz a câmera assumir o lugar dos olhos dos bichos.
Premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes 1953 e Melhor Documentário pela British Film Academy
A Fera e a Flecha/O Arco e a Flecha (En Djungelsaga) – Suécia, 1957, COR, 75’
Direção: Arne Sucksdorff
Mistura de documentário e ficção, rodado na Índia Central, apresenta o tranqüilo cotidiano dos remanescentes da antiga civilização Múria, que até hoje vivem isolados. O ritmo calmo da vida na tribo é quebrado com a chegada de dois jovens de castas diferentes. Eles desrespeitam as regras da sociedade local. Resolvem se unir numa espécie de oca tribal, o que é tabu entre os Múrias. Enquanto isso, um tigre ronda o local em busca de alimento.
Primeira e única tentativa de Sucksdorff de trabalhar com a cor. A trilha original foi composta por Ravi Shankar.
Meu Lar é Copacabana/Fábula (Mitt Hem Är Copacabana) – Brasil, 1965, P&B, 88’
Direção: Arne Sucksdorff
A história de três irmãos, órfãos de pai, que perdem também a mãe e são despejados do barraco onde vivem na favela. Eles conhecem um quarto menino, foragido de um reformatório. Juntos, eles invadem um barraco abandonado e passam a viver ali, até serem expulsos pelos bandidos. Sem ter para onde ir, encontram nas areias da praia de Copacabana um local seguro para viver. Entre risos e brincadeiras, eles lutam para conseguir o pão de cada dia. Até que Ricco fica gravemente doente.
Realizado a partir de roteiro de Flávio Miggliaccio, o filme lançou o ator Cosme dos Santos e recebeu prêmios no Festival de Moscou, Festival de Bruxelas e o Prêmio Francisco de Assis, do Vaticano.
O Menino na Árvore (Pojken I Trädet) – Suécia, 1961, P&B, 85’
Direção: Arne Sucksdorff
Com música de Quincy Jones (na época, um dos maiores produtores e arranjadores musicais do mundo), o filme começa mostrando um grupo de adolescentes de uma rica família sueca, liderado pelo malvado Max, saindo para caçar veados. O sensível Göte, um dos garotos, se afasta do grupo, para não participar da crueldade. Depois, é encontrado dentro do tronco de uma velha árvore, pelo proprietário das terras, que tenta persuadi-lo a deixar o local. Ele se nega.
Mr. Forbusch e os Pinguins (Cry of the Penguins) – Grã-Bretanha, 1971, Cor, 101’
Direção: Arne Sucksdorff, Alfred Viola e Roy Boultin
Um jovem biólogo londrino passa a maior parte do tempo perseguindo meninas ao invés de perseguir a ciência. Quando surge a oportunidade de ir para a Antártida estudar uma colônia de pinguins, ele concorda imediatamente. Não tanto por um interesse científico, mas sim para impressionar a garota que está cortejando. Mas quanto mais tempo ele fica na Antártida, mais se interessa verdadeiramente pelo combate à caça de pinguins. Quando chega a hora de ir para casa finalmente, ele é um homem mudado com uma perspectiva totalmente nova da vida.
Mundo à Parte – Brasil/Suécia, 1970-1976, Cor, 120’
Direção: Arne Sucksdorff
Série realizada para o antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e composta de quatro filmes, batizados por Sucksdorff com os algarismos romanos (I, II, III e IV) e posteriormente chamados de Os anos felizes, Os anos na selva, Manhã do Jacaré e Reino da Selva. Apresenta cenas do cotidiano e registros das pesquisas desenvolvidas por Arne e sua esposa, Maria, durante os anos em que viveram no Pantanal matogrossense. O trabalho mostrou para o mundo a beleza da fauna e da flora da maior planície alagada do planeta.
Média-Metragem
Arne Sucksdorff – Uma Vida Documentando a Vida – Brasil, 2002, Cor, 32’
Direção: Bárbara Fontes
História da vida, da obra e da morte de Arne Sucksdorff, cineasta, escritor, fotógrafo, pesquisador e ambientalista sueco que viveu no Brasil por cerca de 30 anos. As gravações do documentário foram feitas na Suécia, Rio de Janeiro, Cuiabá, Poconé e parte do Pantanal e contam com a participação de mais de 30 pessoas. Arne morreu na Suécia em 2001, aos 84 anos, de enfisema pulmonar e Bárbara pode registrar as últimas imagens do cineasta vivo, entrevistar Dona Maria Sucksdorff, o diretor de fotografia Dib Luft, Luiz Carlos Saldanha, Eduardo Escorel e Flávio Migliaccio, além de conviver e revelar, no curta, excentricidades do famoso cineasta, um perfeccionista.
Curtas-Metragens
Ritmos da Cidade (Människor I Stad) – Suécia, 1948, P&B, 18’
Direção: Arne Sucksdorff
Pequenos fragmentos da cidade de Estocolmo e seus habitantes, ao longo de um dia, com flagrantes em formato impressionista.
Premiado como Melhor Curta-Metragem de 1949, pela Academia Americana, representou o primeiro Oscar da história do cinema sueco.
Um Conto de Verão (En Sommarsaga) – Suécia, Suécia, 1941, P&B, 13’
Direção: Arne Sucksdorff
O filme acompanha a vida de um filhote de raposa nas florestas de Stora Karlso. Arne investiu o próprio dinheiro para produzir este filme. A câmera foi um presente de seu pai. Segundo o crítico Rune Waldekranz, o filme é “um poema denso, original e espontâneo. (…) uma alegoria lírica sobre a morte e a regeneração”.
O Vento e o Rio (Vinden och Floden) – Suécia, 1951, P&B, 10’
Direção: Arne Sucksdorff
Obra que acompanha a vida de um homem de Kashimir, nas montanhas Himalaia. É um cotidiano simples, que fica longe dos avanços tecnológicos. Um rio assume a importância de fonte de vida essencial.
Prêmio Especial do Festival de Veneza de 1952.
Vila Indiana (Indisk By) – Suécia, 1951, P&B, 27’
Direção: Arne Sucksdorff
Resultado de uma viagem do cineasta à Índia, o filme apresenta a vida dos habitantes de uma pequena vila no oriente do país, que enfrenta a ameaça de uma seca terrível.
Sombras na Neve (Skugger över snön) – Suécia, 1945, P&B, 11’
Direção: Arne Sucksdorff
Um garoto prepara uma armadilha na floresta, no dia do Natal. Nas celebrações religiosas, de noite, ele se mostra ansioso para saber o que terá acontecido.
Vento do Oeste (Vinden frän Väster) – Suécia, 1942, P&B, 18’
Direção: Arne Sucksdorff
A vida de uma comunidade do povo Lapão (na Escandinávia). Com a chegada da primavera, os lapões deixam as cidades, retornando às florestas. Um velho lapão sabe que não conseguirá cumprir a jornada final. Enquanto isso, um garoto observa as renas subindo as montanhas através da janela da sala de aula.
Marimbás – Brasil, 1962, P&B, 10’
Direção: Vladimir Herzog
Trabalho final dos alunos do curso ministrado por Arne Sucksdorff no Brasil, apresenta o registro do cotidiano de um grupo símbolo da marginalidade carioca na época: pessoas que viviam da pesca sem serem pescadores no Posto 6 da praia de Copacabana no Rio de Janeiro e faziam biscates e pequenos negócios para conseguir trocados. O filme foi realizado com som direto, em equipamento trazido por Arne para o Brasil, representou uma das primeiras experiências neste campo no Brasil.
Data e horário
16 a 24 de março, das 18h30 às 20h
Classificação Indicativa: 14 Anos
Local
Cinema do Centro Cultural Banco do Brasil
Brasília DF Brasil
Maiores informações
Tel. (61) 3310 7087
Fonte: Vitruvius