OLINDA, HOLANDA (Inventário Poético da Herança
Flamenga em Pernambuco)
© Romildo Gouveia Pinto
Índice de Poemas:
1.
Olinda incendiada
2.
Sina das Conquistas
8 . Punhal de Luz
13.
As
meninas
15.
Refúgio
16. Teoremas
17. Quatro
Cantos
18.
Os
sinos
19.
Inexata
20. Primeiro
decanato
21. Louca
22.
Águas
do amanhã
23. Dor
marinha
24. Argonautas
25.
Ave
26.
Véspera
27.
Meninos
de Olinda
28.
Cabelo
de Fogo
I. A FUGA
Olinda arde:
conventos gemem,
igrejas desmoronam
(Fogem mundanamente priores e frades
- nas arcas, rechonchudos anjos)
É o demônio que traz
o inferno flamengo
Olinda geme:
ardem palácios,
senzalas queimam
(Fogem irmanadamente senhores e escravos
- nas arcas, secretos tesouros)
É o dragão que verte
o fogo flamengo
Olinda cede:
no chão, labaredas
nos ares, fumaça
(Fogem silenciosamente coragem e sonhos
- nas arcas, o cadáver de Olinda)
Haverá uma fênix
nas cinzas flamengas?
II. O PLANO
"Fazer Olinda mais bela do que jamais foi"
III. O SONHO
Reviver é fazer
toda vez cada dia
do seu sonho um segredo;
pois morrer é viver
cada vez todo dia
nas escuras entranhas do medo
IV. O TRABALHO
Plantar cada dia
sem temor ou vaidade
em secreto exercício
uma nova cidade:
cajueiros e alicerces
pisos e mangueiras
coqueiros e paredes
tetos e mangabeiras
cajazeiros e cadeias
porões e pitombeiras
umbuzeiros e senzalas
celas e caramboleiras
mamoeiros e igrejas
conventos e laranjeiras
jenipapeiros e palácios
paços e pitangueiras
V. A FESTA
Refazer é viver
cada vez todo dia
a transparência do segredo;
pois viver é morrer
toda vez cada dia
e saber renascer das cinzas do medo
Obs. 1° Lugar no V Prêmio Scortecci de Poesia - João
Scortecci Editor - São Paulo (SP) - 1986;
- 3° Lugar no I Concurso Nacional de Poesias "Afonso
Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984;
No fragor do embate
(cruel fúria de estrangeiros?)
eram vistos estranhos homens
trazendo o sol nos cabelos;
falando língua inversa,
em suas mãos mil trovões
e o brilho do raio de pólvora...
Vencem Olinda os mágicos seres
chegados em naus de guerra
plantando pavor e medo,
suas botas ferindo a terra.
No fragor do embate
(cruel coragem de fracos?)
eram vistos estranhos homens
trazendo a noite na pele;
falando língua diversa,
em suas mãos nem o sonho
e o brilho da dor nos olhos...
Eram negros e eram índios
fazendo sua uma guerra
longe de suas nações,
seu sangue salgando a terra.
No fragor dos embates
cruel sina a das conquistas.
Obs. 2° Lugar no I Concurso Literário Jubileu de Ouro -
Prêmio Hugo de Abreu - AABB-Tijuca (RJ) - 1985;
- Selecionada no V Prêmio Scortecci de Poesia - João
Scortecci Editor - São Paulo (SP) - 1986.
3. ANNA FERRO
Anna Ferro, de França, sou
meu corpo é prazer para os soldados de Holanda
nesta cidade-bordel chamada Maurícia
Moro no mangue, é de lama meu sangue
Usam-me nos navios, domadora de cios
De dia me cospem, de noite me lambem
Ameaçam com galés e caem aos meus pés
Anna de França, de ferro sou
cheguei clandestina numa nau de Holanda
nesta cidade Maurícia chamada bordel
Moro na lama, é o mangue minha cama
Usam-me nos portos, deixo-os mortos
Ficam-me os dentes, quedam-se doentes
Ardo minha chama nos soldados de Holanda
Anna Bordel, de França sou
procuro meu homem entre os homens de Holanda
pra ser a mulher mais fiel de Maurícia
O espelho de regatos das águas nos pratos
Carinhos sem medos das espumas nos dedos
Perfumes de França nos lençóis da criança
O melhor sexo guardado para o ser amado
Anna Ferro, de França, sou
meu sonho repousa nos regimentos de Holanda
na cidade-esperança chamada Maurícia
Obs. Selecionada no I Concurso Nacional de Poesias "Afonso
Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.
4. PÉGASO
seguras suave as rédeas
(firmes os frágeis dedos)
desse cavalo quieto
que ruminará segredos
assim seguras as rédeas
de teus próprios medos?
cavalgas o arco-íris
cores tecidas em véu
disfarçando num sonho
teu caminhar ao léu
vagas - e em teus vôos
domas estrelas no céu?
um gesto surpreendido
(como um amor ocultado)
sentir na sela o prazer
de um carinho assustado
cruzarás minhas colinas
com teu alazão alado?
Obs. Selecionada no II Concurso Nacional de Poesia -
AABB-Recife (PE) - 1986.
O Conde Maurício parte tristonho,
vai para Holanda e mata meu sonho.
Se fico sozinha sou cidade qualquer:
só o Conde que sabe querer-me mulher.
Quem mais poderá unir
seu nobre nome ao meu;
porque não sendo Maurícia,
que mais poderei ser eu?
Quem me dará a beber
belas e cálidas fontes
e ligará minhas ilhas
com insólitas pontes?
Quem apreciará o doce
dos bons frutos que eu dou
e para quem serei fértil
se parte quem os gozou?
Quem capaz de construir
lindos palácios sem fim,
fazendo-me assim bonita,
donzela em rouge e carmim?
Quem brio e valor terá
a possuir-me por amante:
um bruto e rude guerreiro
ou um frio comerciante?
Quem pensará em vestir
minhas nuas alamedas
com tijolos de Holanda,
como bordados de sedas?
Quem mil músicos trará
com seus suaves cantares,
para fazer serenatas
na paz de belos pomares?
Que cinzéis, penas, pincéis
me mostrarão ao futuro;
que românticos poetas
me louvarão com apuro?
Que mãos me envolverão
o corpo em fêmea beleza,
trazendo do Oriente
pedras, adornos, riquezas?
Quem agora cuidará
de meus rios, as artérias
por onde correm, barrentas,
águas de tantas misérias?
Quem saberá escrever
mui cartas pro além-mar,
nelas contando as belezas
que aqui se encontram sem par?
O Conde Maurício parte tristonho
vai para Holanda e mata meu sonho.
Se fico sozinha sou qualquer cidade;
quem fez com Maurícia tão grande maldade?
Corram e fechem da ponte a porta:
se Maurício parte, quem me conforta?
Corram e fechem a porta da terra:
se Maurício me deixa, meu peito se cerra.
Corram e fechem a porta do mar:
Maurício partindo, quem me vai amar?
Corram e fechem as portas da cidade:
que Maurício não navegue a nau da saudade.
Obs. Selecionada no I Concurso Nacional de Poesias "Afonso
Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.
I.
TEUS VERDES OLHOS
(Estandartes do céu,
do mal, do mar de Olinda)
Sacodes ferina
a sina
- secreto sobrado de minha solidão
Transvestes o amor
da cor
do mistério sem fim do canavial.
II.
TEU ALVO CORPO
(Velas de uma galera
ou nau, ou nave de Holanda)
Aportas no cais
sem paz
do porto sem porta do meu coração
Apostas no frevo
do medo
das ruas de pedra do meu carnaval.
Vou encontrar-te em Olinda,
na invasão holandesa:
ferozes canhões batavos
marcando a fogo as ladeiras.
Teus olhos serão dragões
iluminando a batalha.
Vou encontrar-te na Sé
- tristes fantasmas galegos:
rastros sem eco na terra
(amarga saudade do Tejo).
Os teus cabelos traçando
a trilha do além-mar.
Vou encontrar-te em Milagres,
escrevendo na areia:
a cantiga dos teus passos
(a canção dessa tristeza).
No concerto dos teus olhos
esse clamor de sereia.
Obs. Selecionada no II Concurso Nacional de Poesia -
AABB-Recife (PE) - 1986.
8 . PUNHAL DE LUZ
ouço a tristeza
de meus passos:
é sobre a dor que caminho;
a indicar-me o roteiro
apenas
o olho grande do farol
sigo no rastro de Nassau
com meus passos
na solidão noturna de Olinda;
a iluminar-me o silêncio
apenas
os tiros de luz do farol
transidas almas antigas
em meu encalço
traçam-me a rota do medo;
a fazer-se esperança
apenas
o punhal de luz do farol
é minha a sina de Olinda:
meus passos
têm a mágoa dos séculos;
a afagar-me na angústia
apenas
os ecos de luz do farol
Obs. Selecionada no II Concurso Nacional de Poesia -
AABB-Recife (PE) - 1986.
o espaço esparso
se contrai
e o tempo não se esvai;
renasce
em fantasmas flamengos
que passeiam nos telhados
assustando os gatos
a simetria perfeita
do mistério
redesenhado no telhado
(a cada espantado gato)
me faz lembrar de um tempo
- em que ainda não vivi
mas em que ecoavam
nas madrugadas meus passos
à procura de ti
pena que não saibas ver...
mas neste exato momento
meu fantasma louro de soldado
acena para ti desse telhado
I.
Variando com a lua
seus acessos de loucura
(a que os homens chamam maré)
o mar atira, gemendo,
seus testemunhos de dor
aos braços da bela Olinda.
E logo mandaram erguer,
os homens, um arremedo,
de dique, feito de pedra
com a argamassa do medo.
II.
Contam lendas já antigas
que os lusos e os flamengos
dominadores de Olinda
(pela força de suas armas
só pareceram vencer;
com sua magia Olinda
é que se fez de senhora)
quando de lá foram expulsos
não puderam ou não quiseram
as suas almas levar
em seus apressados embarques.
E exato foram morrendo
(por serem exilados de Olinda,
em suas pátrias embora)
seus espectros em desespero,
com saudades dos pecados,
das ladeiras, dos temperos,
viraram em seres do mar:
uns, sargaço; outros, corais;
muitos em monstros sem par.
E os homens sem entender
os mistérios do degredo,
rápido mandaram erguer
essa muralha de medo.
III.
E quando a lua se esconde,
enciumada de Olinda,
o mar se torna gigante
nessa batalha infinda:
seu marulho é sussurro
ou grito de desespero,
ou proclama de paixão,
ou gemido de saudade,
de partidos corações
de fantasmas que por séculos
na travessia de volta
(uns se perderam em abismos
ou se quedaram em arrecifes)
chegaram às portas de Olinda
- cadeia de sua sina.
IV.
Os espectros dos guerreiros,
com o ódio que vem do amor,
se atiram e se despedaçam
na branca areia da praia.
Os mais tenazes recuam,
porém tornam mais vorazes
num vai-e-vem secular
(é Olinda fazendo amor
com os fantasmas do mar
e se refazendo virgem
para o gozo renovar).
Mas os homens, alma pétrea,
sem alcançar seu segredo,
procuram conter o mar
transidos de ódio e medo.
V.
Os guerreiros, porém, sabem
sua paixão retomar
e com seu esperma de sal
esperam um dia inundar
a sua amada Olinda,
pondo fim ao seu degredo.
Pode o amor recuar
ante um dique feito de pedra,
tecido com a mão do medo?
11. SÉCULOS
menina de quatro séculos
presa de tantos guerreiros
quanta solidão abrigas
em tuas ladeiras...
menina de quatro séculos
cena de tantos embates
quanta solidão habita
nos teus bares...
menina de quatro séculos
virgem de tantos amantes
quanta solidão que grita
em teus carnavais...
12. NÁUTICA
Sou velho lobo do mar:
Trago as chagas da paixão
E quero as águas, se morto.
(Não obedeço ao mirante,
E por bússola o sol)
Sou velho lobo do amar:
Em cada mulher um porto
Pra solidão ancorar.
(Um só rumo certo: o risco,
Olinda só, por saudade)
Sou velho lobo, sou barco
Que desafia as ondas
Quando no abraço do cais.
(Eu acredito nos monstros
Que habitam nossas águas)
Sou velho lobo, naufrágio
Do meu medo que morreu
Nas profundezas do amar.
(Traço rotas nos meus olhos
Que não consigo singrar)
13. AS MENINAS
irmãs de tão semelhantes,
na mesma angústia irmãs?
parecem aves noturnas
que fogem à luz das manhãs
envoltas no canto triste
que disfarçam em silêncios...
em que tristeza se irmanam,
em que solidão se encantam?
parecem doces vampiros
que na madrugada habitam
os mistérios de Olinda.
retratos sépia do ontem...
mutantes na mesma busca,
irmãs em medo as meninas?
Obs. Selecionada no I Concurso Nacional de Poesias "Afonso
Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.
14. CAÇADA
A noite
estremece...
o próprio tempo pára
à espera do bote fatal.
Nenhum ruído
ousa
denunciar a fera...
à véspera do golpe mortal.
O medo esconde a
lua
em inquietas nuvens...
que temem a fera letal.
Surge a fera
silente;
e transforma em morte
o derradeiro grito visceral
do meu assustado
desejo
de desvendar o segredo
desse teu cio animal.
15.
REFÚGIO
das pedras de teu chão
- que ainda ecoam os passos doridos
do Conde Maurício,
enamorado de ti
construo meu refúgio.
arquitetura da minha imensa solidão
vago por tua noite
à procura da louca de Amsterdã
transformada em vampiro
e que disfarçada em ave noturna
habita tuas catedrais.
ouço-a chamar-me nas canções de teus sinos
esvaio-me por tuas pontes
- de onde assisto aos embates
dos soldados que perecem
na glória de morrer por ti
vindos do além-mar.
os canhões tornam-se faróis: tua noite é clara
e ouço ainda o clamor de teus sinos
e ainda morro de minha solidão
Obs. Selecionada no I Concurso Nacional de Poesia -
AABB-Recife (PE) - 1985.
16. TEOREMAS
Que segredos
habitam
o trigal dos teus cabelos?
Que ave-sonho
hesita
no céu desse teu olhar?
São enigmas que
teces
nas noites claras de Olinda
- essa máscara de silêncio,
teoremas que engendras
na contenção dos teus gestos.
Mistérios do não-revelar
(voltar)
17.
QUATRO CANTOS
os descaminhos de Olinda,
os rios dos meus mil enganos
(caudal da tristeza infinda)
deságuam nos Quatro Cantos
ciranda de quatro versos,
os seus quatro mil encantos,
são quatro cantos inversos
cantados nos Quatro Cantos
o olhar azul da menina,
sua vergasta de encantos,
a consciência louca d'Olinda
explodem nos Quatro Cantos
ciranda de canto inverso,
os meus quatro desencantos,
são quatro cantos em verso
chorados nos Quatro Cantos
velhos bêbados de Olinda
(poetas d'olhos insanos)
se esvaem em paixão e sina
na cruz de seus Quatro Cantos
ciranda de quatro versos,
os seus quatro mil encantos,
são quatro cantos inversos
cantados nos Quatro Cantos
quatro esperanças ainda
(vesperal de quatro prantos):
quatro fantasmas de Olinda
dançando nos Quatro Cantos
ciranda de canto inverso,
os meus quatro desencantos,
são quatro cantos em verso
chorados nos Quatro Cantos
Obs. Selecionada no I Concurso Nacional de Poesia -
AABB-Recife (PE) - 1985.
18. OS SINOS
As igrejas estão
silentes,
só se escuta a solidão;
chegou a hora da missa,
onde está o sacristão?
Choram freiras,
jesuítas
na Igreja de São João;
na Catedral de São Pedro,
calou do sino a canção?
- Blim, blão,
blim, blão
Holanda levou os sinos,
vai transformar em canhão.
19. INEXATA
Deflagra o exato
gesto
do meu desespero
a que por insensato me apego
e desata o inexato jorro
desse louco amor
a que como um escravo me entrego.
Inexata, insinua-me um amor,
seu feroz amor,
que logo nega no primeiro ato.
É desacato ao meu sossego
(desfaçatez que me deixa tonto)
esse dar-se e negar-se inexato.
Ora, torrente,
despeja sobre mim
sua genero/cidade farta:
é ninfa diáfana de cetim,
olhar de chama, boca de carmim;
ora é matrona de argila e pedra
que me cobre de loucura, enfim.
Essa inexata Olinda inda me mata!
(voltar)
mais que um retrato
manchado pela inveja do sol,
mais que um
cheiro de saudade
emoldurado na
parede,
fazendo manchar
claras rosas
em enigmáticos
vasos marajoaras
mais que um fero
anjo
que semeia
espectrais lembranças
e abre profundas
trincheiras
em meus mil
corações
- que explodem
feito anúncios
noturnos de
sangue no Capibaribe
és o mistério...
mais que um
beijo
na ternura da
fronte,
mais que uma
amiga distante
que diariamente
renasce
em crianças que
partem
para o
nunca-nunca-mais
és o mistério de
gêmeos,
refeito em cada
maio
no primeiro
decanato
de uma imensa
saudade
(voltar)
21.
LOUCA
me torturam serpentes
de elétricas cores;
eu sou o vidente
de eróticas dores;
teus seios presentes
são mágicos olores;
e te busco no ventre
de metálicas flores,
louca de Olinda.
(voltar)
22. ÁGUAS DO AMANHÃ
filho de profundas
e límpidas
águas do amanhã,
navegas ao contrário
dos meus medos.
tecendo como quem brinca,
a vida;
traçando como quem brilha,
a rota
tramando como quem baila
o passo,
recrias a mim.
nasço de ti
assim como dos meus sonhos
nasceste.
23. DOR MARINHA
Do alto da Sé de Olinda
me lanço em quieto vôo.
Meus olhos caem no mar
e passeiam clandestinos
num navio estrangeiro.
Mas meu corpo
(sem olhos, sem medos)
é sobre ti que mergulha.
É sobre teu corpo negro
que eu me despedaço.
É que eu,
Ícaro frágil,
não encontro teu corpo...
Mas o vazio da impossibilidade.
(voltar)
24. ARGONAUTAS
Bússola és
para navegantes do Argos
porque
(vacilante em teu próprio tino)
indicas o rumo do mistério
Nau de névoa
irmã geminada do sonho
sabes dar
(aos navegantes da nave do amar)
a certeza dos segredos
Mar tenebroso
para os incautos argonautas
transmutas
os monstros interiores
em desejos domados
25. AVE
I
Ave rara
engendras o vôo
por sobre o abismo
(graça)
II
Ave frágil
conduzes o medo
na firmeza das asas
(raça)
III
Ave linda
enlaças o sonho
na dúvida das plumas
(couraça)
26. VÉSPERA
Meus dentes triturarão
tua placidez bovina.
Minhas unhas gravarão
excitados mapas em teu corpo
sensual.
Eu sorrirei
irônico
- e falarei da inutilidade de teu ventre
refratário à serpente
que te inundará de inquietude
Teus olhos de
fera indefesa
pouco
dizem de ti,
de tua selvagem plenitude.
Teu segredo é o
mistério
da espera,
que te transmuta em fera.
(Tigresa que
transvestes
atrás do silêncio de teus olhos).
Vera mas frágil fera.
(voltar)
- Olinda também se chama
a Marim dos Caetés
(Diz o menino, pisando
as velhas pedras, descalço,
o sal ferindo seus pés)
- O Conde Nassau morou
naquela casa cor de sangue
(Ele e a família dividem
com caranguejo e doença
a podre lama do mangue)
- Essa igreja restaurada
é a Catedral da Sé
(Não sabe ver, o menino,
que catedral verdadeira
é ele, auto-de-fé)
- Ao nosso lado a Faculdade
que é um centro de saber
(A escola que ele teve
foi a dura lida da vida
que o formou no sofrer)
- O Mercado dos Escravos
ficava aqui na Ribeira
(O menino ainda pensa
que a escravidão acabou
pois não o vendem na feira)
- Das lojas de artesanato
o senhor leva presentes
(Não é ele o souvenir,
na sua triste escultura,
a boca murcha sem dentes?)
- Aqui, à beira da praia
as pessoas vêm beber
(E o menino embriagado
organismo estropiado
da cachaça do viver)
- Este é um bom restaurante,
a cozinha é regional
(Diz o menino, enquanto
a sua barriga ronca
de fome universal)
- Eu agradeço o trocado
e volte sempre à Marim
(Esse dinheiro socorre
as fomes que o esperam
na Ilha do Maruim)
28. CABELO DE FOGO
vem, holandesa,
do cabelo de fogo
incendiar Olinda
e me deixar louco
na praça da Preguiça
e nos Quatro Cantos
eu quero beber
teus quatro mil encantos
sou Calabar,
ensino-te o segredo
sai, ó lindeza,
desse teu degredo,
vem, holandesa,
guerreira sem medo
sou Calabar,
ensino-te o segredo
vem romper o dique
da minha paixão
vem saquear o doce
do meu coração
vamos fazer o passo
no rastro de Nassau
vem pra tocar fogo
neste carnaval
Obs. Classificada no IV CANTO DO BRASIL
FENAB-Brasília
(DF) - 1985
(Transformada em frevo, em
parceria com Rui Lira)