OLINDA, HOLANDA (Inventário Poético da Herança Flamenga em  Pernambuco)
        © Romildo Gouveia Pinto

           

        Índice de Poemas:

 

1.      Olinda incendiada
2.      Sina das Conquistas

3.      Anna Ferro

4.      Pégaso

5.      Nau da saudade

6.      Olinda, Holanda

7.      Saudades do Tejo

8 .     Punhal de Luz

9.      Simetria do mistério

10.    Proclama de paixão

11.    Séculos

12.    Náutica

13.    As meninas
15.
   Refúgio
16.    
Teoremas
17.    
Quatro Cantos
18.   
Os sinos
19.   
Inexata
20.    
Primeiro decanato
21.   
Louca
22.   
Águas do amanhã
23.    D
or marinha
24.    Argonautas

25.   
Ave
26.   
Véspera
27.   
Meninos de Olinda
28.   
Cabelo de Fogo

 

 

 

  1.   OLINDA INCENDIADA 

                    

         I. A FUGA

         Olinda arde:

           conventos gemem,

           igrejas desmoronam

 

         (Fogem mundanamente priores e frades

         - nas arcas, rechonchudos anjos)

 

         É o demônio que traz

         o inferno flamengo

 

         Olinda geme:

           ardem palácios,

           senzalas queimam

 

         (Fogem irmanadamente senhores e escravos

         - nas arcas, secretos tesouros)

 

         É o dragão que verte

         o fogo flamengo

 

         Olinda cede:

           no chão, labaredas

           nos ares, fumaça

 

         (Fogem silenciosamente coragem e sonhos

         - nas arcas, o cadáver de Olinda)

 

         Haverá uma fênix

         nas cinzas flamengas?

 

 

         II. O PLANO

 

         "Fazer Olinda mais bela do que jamais foi"

 

 

         III. O SONHO

         Reviver é fazer

         toda vez cada dia

         do seu sonho um segredo;

         pois morrer é viver

         cada vez todo dia

         nas escuras entranhas do medo

 

 

         IV. O TRABALHO

         Plantar cada dia

         sem temor ou vaidade

         em secreto exercício

         uma nova cidade:

 

         cajueiros e alicerces

         pisos e mangueiras

         coqueiros e paredes

         tetos e mangabeiras

 

         cajazeiros e cadeias

         porões e pitombeiras

         umbuzeiros e senzalas

         celas e caramboleiras

 

         mamoeiros e igrejas

         conventos e laranjeiras

         jenipapeiros e palácios

         paços e pitangueiras

 

 

         V. A FESTA

         Refazer é viver

         cada vez todo dia

         a transparência do segredo;

         pois viver é morrer

         toda vez cada dia

         e saber renascer das cinzas do medo

 

         Obs. 1°  Lugar  no  V  Prêmio  Scortecci  de  Poesia - João

         Scortecci Editor - São Paulo (SP) - 1986;

         -  3°  Lugar  no  I  Concurso Nacional de Poesias "Afonso

         Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984; 

 

         (voltar)

 

        

 2.     SINA DAS CONQUISTAS 

                  

         No fragor do embate

         (cruel fúria de estrangeiros?)

         eram vistos estranhos homens

         trazendo o sol nos cabelos;

         falando língua inversa,

         em suas mãos mil trovões

         e o brilho do raio de pólvora...

 

         Vencem Olinda os mágicos seres

         chegados em naus de guerra

         plantando pavor e medo,

         suas botas ferindo a terra.

 

         No fragor do embate

         (cruel coragem de fracos?)

         eram vistos estranhos homens

         trazendo a noite na pele;

         falando língua diversa,

         em suas mãos nem o sonho

         e o brilho da dor nos olhos...

 

         Eram negros e eram índios

         fazendo sua uma guerra

         longe de suas nações,

         seu sangue salgando a terra.

 

         No fragor dos embates

         cruel sina a das conquistas.

       

         Obs.  2°  Lugar  no  I  Concurso Literário Jubileu de Ouro -

         Prêmio Hugo de Abreu - AABB-Tijuca (RJ) - 1985; 

          -  Selecionada no V  Prêmio  Scortecci  de  Poesia - João

         Scortecci Editor - São Paulo (SP) - 1986.

 

         (voltar)

 

   

3.      ANNA FERRO

 

         Anna Ferro, de França, sou

         meu corpo é prazer para os soldados de Holanda

         nesta cidade-bordel chamada Maurícia

 

         Moro no mangue, é de lama meu sangue

         Usam-me nos navios, domadora de cios

         De dia me cospem, de noite me lambem

         Ameaçam com galés e caem aos meus pés

 

         Anna de França, de ferro sou

         cheguei clandestina numa nau de Holanda

         nesta cidade Maurícia chamada bordel

 

         Moro na lama, é o mangue minha cama

         Usam-me nos portos, deixo-os mortos

         Ficam-me os dentes, quedam-se doentes

         Ardo minha chama nos soldados de Holanda

 

         Anna Bordel, de França sou

         procuro meu homem entre os homens de Holanda

         pra ser a mulher mais fiel de Maurícia

 

         O espelho de regatos das  águas nos pratos

         Carinhos sem medos das espumas nos dedos

         Perfumes de França nos lençóis da criança

         O melhor sexo guardado para o ser amado

 

         Anna Ferro, de França, sou

         meu sonho repousa nos regimentos de Holanda

         na cidade-esperança chamada Maurícia

 

         Obs. Selecionada no I  Concurso Nacional de Poesias "Afonso

         Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.

 

         (voltar)

 

 

4.      PÉGASO 

 

         seguras suave as rédeas

         (firmes os frágeis dedos)

         desse cavalo quieto

         que ruminará segredos

 

         assim seguras as rédeas

         de teus próprios medos?

 

         cavalgas o arco-íris

         cores tecidas em véu

         disfarçando num sonho

         teu caminhar ao léu

 

         vagas - e em teus vôos

         domas estrelas no céu?

 

         um gesto surpreendido

         (como um amor ocultado)

         sentir na sela o prazer

         de um carinho assustado

 

         cruzarás minhas colinas

         com teu alazão alado?

 

         Obs. Selecionada  no  II  Concurso  Nacional  de  Poesia  -

         AABB-Recife (PE) - 1986.

 

         (voltar)

 

 

5.      NAU DA SAUDADE

 

         

         O Conde Maurício parte tristonho,

         vai para Holanda e mata meu sonho.

         Se fico sozinha sou cidade qualquer:

         só o Conde que sabe querer-me mulher.

 

         Quem mais poderá unir

         seu nobre nome ao meu;

         porque não sendo Maurícia,

         que mais poderei ser eu?

 

         Quem me dará a beber

         belas e cálidas fontes

         e ligará minhas ilhas

         com insólitas pontes?

 

         Quem apreciará o doce

         dos bons frutos que eu dou

         e para quem serei fértil

         se parte quem os gozou?

 

         Quem capaz de construir

         lindos palácios sem fim,

         fazendo-me assim bonita,

         donzela em rouge e carmim?

 

         Quem brio e valor terá

         a possuir-me por amante:

         um bruto e rude guerreiro

         ou um frio comerciante?

 

         Quem pensará em vestir

         minhas nuas alamedas

         com tijolos de Holanda,

         como bordados de sedas?

 

         Quem mil músicos trará

         com seus suaves cantares,

         para fazer serenatas

         na paz de belos pomares?

 

         Que cinzéis, penas, pincéis

         me mostrarão ao futuro;

         que românticos poetas

         me louvarão com apuro?

 

         Que mãos me envolverão

         o corpo em fêmea beleza,

         trazendo do Oriente

         pedras, adornos, riquezas?

 

         Quem agora cuidará

         de meus rios, as artérias

         por onde correm, barrentas,

         águas de tantas misérias?

 

         Quem saberá escrever

         mui cartas pro além-mar,

         nelas contando as belezas

         que aqui se encontram sem par?

 

         O Conde Maurício parte tristonho

         vai para Holanda e mata meu sonho.

         Se fico sozinha sou qualquer cidade;

         quem fez com Maurícia tão grande maldade?

 

         Corram e fechem da ponte a porta:

         se Maurício parte, quem me conforta?

 

         Corram e fechem a porta da terra:

         se Maurício me deixa, meu peito se cerra.

 

         Corram e fechem a porta do mar:

         Maurício partindo, quem me vai amar?

 

         Corram e fechem as portas da cidade:

         que Maurício não navegue a nau da saudade.

 

         Obs. Selecionada no I  Concurso Nacional de Poesias "Afonso

         Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.

 

         (voltar)

 

 

6.      OLINDA, HOLANDA

 

         I.

 

         TEUS VERDES OLHOS

 

                   (Estandartes do céu,

                   do mal, do mar de Olinda)

 

         Sacodes ferina

                   a sina

         - secreto sobrado de minha solidão

 

         Transvestes o amor

                   da cor

         do mistério sem fim do canavial.

 

         II.

 

         TEU ALVO CORPO

 

                   (Velas de uma galera

                   ou nau, ou nave de Holanda)

 

         Aportas no cais

                   sem paz

         do porto sem porta do meu coração

 

         Apostas no frevo

                   do medo

         das ruas de pedra do meu carnaval.

 

         (voltar)

 

 

7.      SAUDADES DO TEJO

 

         Vou encontrar-te em Olinda,

         na invasão holandesa:

         ferozes canhões batavos

         marcando a fogo as ladeiras.

 

         Teus olhos serão dragões

         iluminando a batalha.

         Vou encontrar-te na Sé

         - tristes fantasmas galegos:

 

         rastros sem eco na terra

         (amarga saudade do Tejo).

 

         Os teus cabelos traçando

         a trilha do além-mar.

         Vou encontrar-te em Milagres,

         escrevendo na areia:

         a cantiga dos teus passos

         (a canção dessa tristeza).

 

         No concerto dos teus olhos

         esse clamor de sereia.

 

         Obs. Selecionada  no  II  Concurso  Nacional  de  Poesia  -

                   AABB-Recife (PE) - 1986.

 

         (voltar)

 

 

8 .     PUNHAL DE LUZ

 

         ouço a tristeza

         de meus passos:

         é sobre a dor que caminho;

 

         a indicar-me o roteiro

                                 apenas

         o olho grande do farol

 

         sigo no rastro de Nassau

                    com meus passos

         na solidão noturna de Olinda;

 

         a iluminar-me o silêncio

                                     apenas

         os tiros de luz do farol

 

         transidas almas antigas

                    em meu encalço

         traçam-me a rota do medo;

 

         a fazer-se esperança

                               apenas

         o punhal de luz do farol

 

         é minha a sina de Olinda:

                            meus passos

         têm a mágoa dos séculos;

 

         a afagar-me na angústia

                                    apenas

         os ecos de luz do farol

 

         Obs. Selecionada  no  II  Concurso  Nacional  de  Poesia  -

                AABB-Recife (PE) - 1986.

 

         (voltar)

 

 

9.      SIMETRIA DO MISTÉRIO

 

         o espaço esparso

         se contrai

         e o tempo não se esvai;

         renasce

         em fantasmas flamengos

         que passeiam nos telhados

         assustando os gatos

 

         a simetria perfeita

         do mistério

         redesenhado no telhado

         (a cada espantado gato)

         me faz lembrar de um tempo

         - em que ainda não vivi

         mas em que ecoavam

         nas madrugadas meus passos

         à procura de ti

 

         pena que não saibas ver...

         mas neste exato momento

         meu fantasma louro de soldado

         acena para ti desse telhado

 

         (voltar)

 

 

 

10.    PROCLAMA DE PAIXÃO

 

         I.

 

         Variando com a lua

         seus acessos de loucura

                   (a que os homens chamam maré)

         o mar atira, gemendo,

         seus testemunhos de dor

         aos braços da bela Olinda.

 

         E logo mandaram erguer,

         os homens, um arremedo,

         de dique, feito de pedra

         com a argamassa do medo.

 

 

         II.

 

         Contam lendas já antigas

         que os lusos e os flamengos

         dominadores de Olinda

 

                   (pela força de suas armas

                   só pareceram vencer;

                   com sua magia Olinda

                   é que se fez de senhora)

 

         quando de lá foram expulsos

         não puderam ou não quiseram

         as suas almas levar

         em seus apressados embarques.

 

         E exato foram morrendo

 

                   (por serem exilados de Olinda,

                   em suas pátrias embora)

 

         seus espectros em desespero,

         com saudades dos pecados,

         das ladeiras, dos temperos,

         viraram em seres do mar:

 

                   uns, sargaço; outros, corais;

                   muitos em monstros sem par.

 

         E os homens sem entender

         os mistérios do degredo,

         rápido mandaram erguer

         essa muralha de medo.

 

 

         III.

 

         E quando a lua se esconde,

         enciumada de Olinda,

         o mar se torna gigante

         nessa batalha infinda:

         seu marulho é sussurro

         ou grito de desespero,

 

                   ou proclama de paixão,

 

         ou gemido de saudade,

         de partidos corações

         de fantasmas que por séculos

         na travessia de volta

 

                   (uns se perderam em abismos

                   ou se quedaram em arrecifes)

 

         chegaram às portas de Olinda

         - cadeia de sua sina.

 

 

         IV.

 

         Os espectros dos guerreiros,

         com o ódio que vem do amor,

         se atiram e se despedaçam

         na branca areia da praia.

 

         Os mais tenazes recuam,

         porém tornam mais vorazes

         num vai-e-vem secular

 

                   (é Olinda fazendo amor

                   com os fantasmas do mar

                   e se refazendo virgem

                   para o gozo renovar).

 

         Mas os homens, alma pétrea,

         sem alcançar seu segredo,

         procuram conter o mar

         transidos de ódio e medo.

 

         V.

 

         Os guerreiros, porém, sabem

         sua paixão retomar

         e com seu esperma de sal

         esperam um dia inundar

         a sua amada Olinda,

         pondo fim ao seu degredo.

 

         Pode o amor recuar

         ante um dique feito de pedra,

         tecido com a mão do medo?

 

         (voltar)

 

 

11.     SÉCULOS

 

         menina de quatro séculos

         presa de tantos guerreiros

         quanta solidão abrigas

         em tuas ladeiras...

 

         menina de quatro séculos

         cena de tantos embates

         quanta solidão habita

         nos teus bares...

 

         menina de quatro séculos

         virgem de tantos amantes

         quanta solidão que grita

         em teus carnavais...

 

         (voltar)

 

 

12.     NÁUTICA

 

         Sou velho lobo do mar:

         Trago as chagas da paixão

         E quero as águas, se morto.

 

         (Não obedeço ao mirante,

         E por bússola o sol)

 

         Sou velho lobo do amar:

         Em cada mulher um porto

         Pra solidão ancorar.

 

         (Um só rumo certo: o risco,

         Olinda só, por saudade)

 

         Sou velho lobo, sou barco

         Que desafia as ondas

         Quando no abraço do cais.

 

         (Eu acredito nos monstros

         Que habitam nossas águas)

 

         Sou velho lobo, naufrágio

         Do meu medo que morreu

         Nas profundezas do amar.

 

         (Traço rotas nos meus olhos

         Que não consigo singrar)

 

         (voltar)

 

 

13.    AS MENINAS

 

         irmãs de tão semelhantes,

         na mesma angústia irmãs?

 

         parecem aves noturnas

         que fogem à luz das manhãs

         envoltas no canto triste

         que disfarçam em silêncios...

 

         em que tristeza se irmanam,

         em que solidão se encantam?

 

         parecem doces vampiros

         que na madrugada habitam

         os mistérios de Olinda.

         retratos sépia do ontem...

 

         mutantes na mesma busca,

         irmãs em medo as meninas?

 

         Obs. Selecionada  no I Concurso Nacional de Poesias "Afonso

         Félix de Souza" - AABB-Goiânia (GO) - 1984.

 

         (voltar)

 

 

14.    CAÇADA

         A noite estremece...
         o próprio tempo pára
         à espera do bote fatal.

         Nenhum ruído ousa
         denunciar a fera...
         à véspera do golpe mortal.

         O medo esconde a lua
         em inquietas nuvens...
         que temem a fera letal.

         Surge a fera silente;
         e transforma em morte
         o derradeiro grito visceral

         do meu assustado desejo
         de desvendar o segredo
         desse teu cio animal.

         (voltar)


15.
    REFÚGIO

         das pedras de teu chão

             - que ainda ecoam os passos doridos

             do Conde Maurício,

             enamorado de ti

         construo meu refúgio.

 

         arquitetura da minha imensa solidão

 

         vago por tua noite

             à procura da louca de Amsterdã

             transformada em vampiro

             e que disfarçada em ave noturna

         habita tuas catedrais.

 

         ouço-a chamar-me nas canções de teus sinos

 

         esvaio-me por tuas pontes

             - de onde assisto aos embates

             dos soldados que perecem

             na glória de morrer por ti

         vindos do além-mar.

 

         os canhões tornam-se faróis: tua noite é clara

 

         e ouço ainda o clamor de teus sinos

         e ainda morro de minha solidão

 

         Obs. Selecionada  no  I  Concurso  Nacional  de  Poesia  -

         AABB-Recife (PE) - 1985.

 

         (voltar)

 

 

16.     TEOREMAS

         Que segredos habitam
         o trigal dos teus cabelos?

         Que ave-sonho hesita
         no céu desse teu olhar?

         São enigmas que teces
         nas noites claras de Olinda
         - essa máscara de silêncio,
         teoremas que engendras
         na contenção dos teus gestos.

         Mistérios do não-revelar

         (voltar)


17.    
QUATRO CANTOS

         os descaminhos de Olinda,

         os rios dos meus mil enganos

         (caudal da tristeza infinda)

         deságuam nos Quatro Cantos

 

         ciranda de quatro versos,

         os seus quatro mil encantos,

         são quatro cantos inversos

         cantados nos Quatro Cantos

 

         o olhar azul da menina,

         sua vergasta de encantos,

         a consciência louca d'Olinda

         explodem nos Quatro Cantos

 

         ciranda de canto inverso,

         os meus quatro desencantos,

         são quatro cantos em verso

         chorados nos Quatro Cantos

 

         velhos bêbados de Olinda

         (poetas d'olhos insanos)

         se esvaem em paixão e sina

         na cruz de seus Quatro Cantos

 

         ciranda de quatro versos,

         os seus quatro mil encantos,

         são quatro cantos inversos

         cantados nos Quatro Cantos

 

         quatro esperanças ainda

         (vesperal de quatro prantos):

         quatro fantasmas de Olinda

         dançando nos Quatro Cantos

 

         ciranda de canto inverso,

         os meus quatro desencantos,

         são quatro cantos em verso

         chorados nos Quatro Cantos

 

         Obs. Selecionada  no  I  Concurso  Nacional  de  Poesia  -

          AABB-Recife (PE) - 1985.

 

         (voltar)

 

 

 

18.    OS SINOS

         As igrejas estão silentes,
         só se escuta a solidão;
         chegou a hora da missa,
         onde está o sacristão?

         Choram freiras, jesuítas
         na Igreja de São João;
         na Catedral de São Pedro,
         calou do sino a canção?

         no badalar a emoção.
         A torre agora emudece,

         cadê o sino, irmão?

         - Blim, blão, blim, blão
         Holanda levou os sinos,
         vai transformar em canhão.

         (voltar)

 

19.     INEXATA

         Deflagra o exato gesto
         do meu desespero
         a que por insensato me apego
         e desata o inexato jorro
         desse louco amor
         a que como um escravo me entrego.

         Inexata, insinua-me um amor,
         seu feroz amor,
         que logo nega no primeiro ato.
         É desacato ao meu sossego
 
       (desfaçatez que me deixa tonto)
         esse dar-se e negar-se inexato.

         Ora, torrente, despeja sobre mim
         sua genero/cidade farta:
         é ninfa diáfana de cetim,
         olhar de chama, boca de carmim;
         ora é matrona de argila e pedra

         que me cobre de loucura, enfim.

         Essa inexata Olinda inda me mata!

        (voltar)

 

20.     PRIMEIRO DECANATO

         mais que um retrato
         manchado pela inveja do sol,
         mais que um cheiro de saudade
         emoldurado na parede,
         fazendo manchar claras rosas
         em enigmáticos vasos marajoaras

         mais que um fero anjo
         que semeia espectrais lembranças
         e abre profundas trincheiras
         em meus mil corações
         - que explodem feito anúncios
         noturnos de sangue no Capibaribe

         és o mistério...
         mais que um beijo
         na ternura da fronte,
         mais que uma amiga distante
         que diariamente renasce
         em crianças que partem
         para o nunca-nunca-mais

         és o mistério de gêmeos,
         refeito em cada maio
         no primeiro decanato
         de uma imensa saudade

         (voltar)


21.    
LOUCA

          me torturam serpentes
              de elétricas cores;

          eu sou o vidente
              de eróticas dores;

          teus seios presentes
              são mágicos olores;

          e te busco no ventre
              de metálicas flores,

                  louca de Olinda.

           (voltar)

 

22.     ÁGUAS DO AMANHÃ

         filho de profundas

                  e límpidas

         águas do amanhã,

         navegas ao contrário

         dos meus medos.

 

         tecendo como quem brinca,

                  a vida;

         traçando como quem brilha,

                  a rota

         tramando como quem baila

                  o passo,

 

         recrias a mim.

 

         nasço de ti

             assim como dos meus sonhos

         nasceste.

 

        (voltar)

 

 

 

23.     DOR MARINHA

         Do alto da Sé de Olinda
         me lanço em quieto vôo.
         Meus olhos caem no mar
         e passeiam clandestinos
         num navio estrangeiro.

         Mas meu corpo
         (sem olhos, sem medos)
         é sobre ti que mergulha.
         É sobre teu corpo negro
         que eu me despedaço.

         É que eu,
         Ícaro frágil,
         não encontro teu corpo...
 

         Mas o vazio da impossibilidade.

         (voltar)

 

24.    ARGONAUTAS

         Bússola és

            para navegantes do Argos

         porque

         (vacilante em teu próprio tino)

         indicas o rumo do mistério

 

         Nau de névoa

         irmã geminada do sonho

         sabes dar

         (aos navegantes da nave do amar)

         a certeza dos segredos

 

         Mar tenebroso

         para os incautos argonautas

         transmutas

         os monstros interiores

         em desejos domados

 

         (voltar)

 

 

25.     AVE

 

         I

 

         Ave rara

             engendras o vôo

         por sobre o abismo

         (graça)

 

 

         II

 

         Ave frágil

             conduzes o medo

         na firmeza das asas

         (raça)

 

 

         III

 

         Ave linda

             enlaças o sonho

         na dúvida das plumas

         (couraça)

 

         (voltar)

 

 

 

26.    VÉSPERA

         Meus dentes triturarão
                     tua placidez bovina.
         Minhas unhas gravarão
         excitados mapas em teu corpo
                     sensual.

         Eu sorrirei irônico
         - e falarei da inutilidade de teu ventre
                     refratário à serpente
         que te inundará de inquietude

         Teus olhos de fera indefesa
         pouco dizem de ti,
                     de tua selvagem plenitude.

         Teu segredo é o mistério
                     da espera,
         que te transmuta em fera.

         (Tigresa que transvestes
         atrás do silêncio de teus olhos).

         Vera mas frágil fera.

         (voltar)

 

27.    MENINOS DE OLINDA

         - Olinda também se chama

         a Marim dos Caetés

 

         (Diz o menino, pisando

         as velhas pedras, descalço,

         o sal ferindo seus pés)

 

         - O Conde Nassau morou

         naquela casa cor de sangue

 

         (Ele e a família dividem

         com caranguejo e doença

         a podre lama do mangue)

 

         - Essa igreja restaurada

         é a Catedral da Sé

 

         (Não sabe ver, o menino,

         que catedral verdadeira

         é ele, auto-de-fé)

 

 

         - Ao nosso lado a Faculdade

         que é um centro de saber

 

         (A escola que ele teve

         foi a dura lida da vida

         que o formou no sofrer)

 

 

         - O Mercado dos Escravos

         ficava aqui na Ribeira

 

         (O menino ainda pensa

         que a escravidão acabou

         pois não o vendem na feira)

 

         - Das lojas de artesanato

         o senhor leva presentes

 

         (Não é ele o souvenir,

         na sua triste escultura,

         a boca murcha sem dentes?)

 

         - Aqui, à beira da praia

         as pessoas vêm beber

 

         (E o menino embriagado

         organismo estropiado

         da cachaça do viver)

 

         - Este é um bom restaurante,

         a cozinha é regional

 

         (Diz o menino, enquanto

         a sua barriga ronca

         de fome universal)

 

         - Eu agradeço o trocado

         e volte sempre à Marim

 

         (Esse dinheiro socorre

         as fomes que o esperam

         na Ilha do Maruim)

 

         (voltar)

 

 

 

28.    CABELO DE FOGO

 

 

         vem, holandesa,

         do cabelo de fogo

         incendiar Olinda

         e me deixar louco

 

         na praça da Preguiça

         e nos Quatro Cantos

         eu quero beber

         teus quatro mil encantos

 

         sou Calabar,

         ensino-te o segredo

         sai, ó lindeza,

         desse teu degredo,

         vem, holandesa,

         guerreira sem medo

         sou Calabar,

         ensino-te o segredo

 

         vem romper o dique

         da minha paixão

         vem saquear o doce

         do meu coração

 

         vamos fazer o passo

         no rastro de Nassau

         vem pra tocar fogo

         neste carnaval

 

         Obs. Classificada no IV CANTO DO BRASIL

         FENAB-Brasília (DF) - 1985
         (Transformada em frevo, em parceria com Rui Lira)
 

 

         (voltar)

 

 

         Estes poemas integram o site © www.romildo.com