A volta aos trilhos
Depois de décadas de baixo crescimento, a
indústria ferroviária tem o maior pacote de investimentos da
história
Por André Siqueira
A indústria
ferroviária funciona a plena carga para não perder uma corrida
histórica. A produtividade da malha brasileira cresceu 94% nos
últimos dez anos, quando foram negociadas as primeiras concessões
privadas para exploração das ferrovias. Em 2005, foram transportados
mais de 400 milhões de toneladas de carga – um recorde, assim como a
fabricação nacional de 7.500 vagões (quadro abaixo). Mas ainda é
pouco para atender à demanda puxada pelas exportações de commodities
agrícolas e metálicas.
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Demanda em alta.
Até 2008, as
concessionárias planejam comprar mais de 20 mil vagões |
Só a última safra de grãos
(2005/2006) deverá beirar 125 milhões de toneladas, boa parte das
quais poderiam ser transportadas por trens, seja até os portos ou
para centros de distribuição. “É um absurdo um caminhão descer com
até 30 toneladas de soja do Mato Grosso até o Porto de Paranaguá.
Essa logística torna a soja brasileira US$ 20 mais cara por
tonelada”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria
Ferroviária (Abifer), Luís Cesário da Silveira.
As concessionárias prevêem a
compra de mais de 20 mil vagões até 2008 – uma produção média anual
duas vezes maior que a dos tempos do milagre econômico, na década de
70. Com o mercado praticamente garantido, o setor foi revitalizado e
atraiu novas empresas. A Amsted Maxion, maior fabricante de material
ferroviário no País, reativou antigas plantas, como a da Cobrasma,
em Osasco. A Randon, montadora de veículos pesados, criou uma linha
de vagões.
Outra estreante nesse mercado
é a operadora América Latina Logística (ALL), que inaugurou, no fim
de janeiro, a Santa Fé Vagões, em Santa Maria (RS), em parceria com
o grupo indiano Besco. “Nossa necessidade atual, de 1.200 vagões ao
ano, deve perdurar pelo menos até 2010”, diz o gerente-financeiro da
ALL, Carlos Augusto Moreira.
Além das operadoras, as
empresas usuárias do transporte ferroviário, em especial as
exportadoras, têm se interessado pela aquisição de vagões. Dois
exemplos recentes são os da Caramuru Alimentos e da trading ADM, que
gastaram, respectivamente, R$ 30 milhões e R$ 23 milhões na compra
de frota ferroviária. Outra opção já presente no mercado brasileiro
é o leasing de vagões, oferecido pelo grupo japonês Mitsui e pelo
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
“Os exportadores passaram a
investir no setor com lastro nos acordos internacionais de longo
prazo para a comercialização de produtos”, diz o diretor-executivo
da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF),
Rodrigo Vilaça. Ele também aposta que o incremento da frota está
garantido pelos próximos cinco anos. Só os investimentos das
operadoras deverão atingir R$ 2,35 bilhões ao longo deste ano. “A
partir de 2010, se não houver fortes investimentos na eliminação dos
gargalos atuais e na ampliação da malha, vamos bater no limite da
capacidade de crescimento”, adverte.
Moreira, da ALL, explica que,
durante os primeiros anos pós-privatização, as concessionárias se
esforçaram principalmente para dar condições de uso às ferrovias e à
frota herdadas da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). “Ainda hoje a
malha é subutilizada”, afirma. Se quisesse atender a toda a demanda
atual de seus clientes, a operadora teria de adicionar cerca de 5
mil vagões e 200 locomotivas à frota atual, avalia o gerente da ALL.
Para o chefe do Departamento
de Logística do BNDES, Rômulo Santos, as operadoras passaram cinco
anos “olhando para os lados”, depois da privatização. “O processo de
otimização da malha só começou, de fato, em 2002. Agora está próximo
do auge”, afirma. O banco federal contribuiu com mais de R$ 1 bilhão
em financiamentos para tirar as ferrovias brasileiras da inércia.
Foram cerca de R$ 200 milhões para a ALL, outros R$ 200 milhões para
a Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), além dos créditos para a
indústria de vagões.
Mais recentemente, o BNDES
entrou com R$ 680 milhões na reestruturação da Brasil Ferrovias, o
que inclui novos recursos e conversão de dívida em capital. A
operação, que tirou de um estágio pré-falimentar a concessionária
responsável pelas ferrovias Ferronorte, Ferroban e Novoeste, deixou
o BNDES com cerca de 40% das ações da empresa.
Mas a participação poderá
diminuir tão logo seja batido o martelo para a venda da
concessionária, o que deve acontecer nos próximos meses. Os
acionistas majoritários, os fundos de pensão Previ e Funcef,
marcaram para 8 de março a abertura das propostas de quatro grupos
qualificados para a compra: as operadoras MRS Logística e ALL, a
Bunge Fertilizantes e a Copersucar.
O presidente da Funcef,
Guilherme Lacerda, não limita as possibilidades de negócio: “Para
nós, o que importa é que o novo acionista venha a somar capital para
dar continuidade ao processo de recuperação da empresa. Tudo depende
das propostas que forem apresentadas”. Isso quer dizer que os
acionistas podem aceitar compartilhar o negócio com um novo sócio.
Mesmo entre os interessados, aliás, cogita-se a possibilidade de
surgirem acordos e composições para facilitar a aquisição.
“A Brasil Ferrovias virou o
centro das atenções”, diz a analista da Lafis Consultoria Cátia
Morii. A rede operada pela concessionária foi subdividida em duas
partes, de acordo com a largura (bitola) dos trilhos e com o
conceito de corredores de exportação. “O potencial de crescimento
dessas ferrovias é muito grande, além de estratégico para vários
setores da economia.”
Cátia cogita que a ALL teria
interesse pelas operações de bitola estreita, que incluem a ferrovia
Novoeste e parte da Ferroban, e poderia se unir a um grupo
minerador, como a Companhia Vale do Rio Doce ou a Rio Tinto, para
fechar a compra. Para arrematar a rede de bitola larga, composta
pela Ferronorte e por outra porção da Ferroban, especula-se que a
MRS possa entrar em acordo com a Bunge.
Para o especialista em
logística Paulo Fernando Fleury, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), grandes usuários do setor ferroviário encaram a
aquisição de concessões como um movimento defensivo. “O fundamental
para eles é garantir que serão feitos os investimentos necessários
às ferrovias, já que ainda há muito o que melhorar na malha atual”,
afirma. “As empresas não podem é correr o risco de não ver supridas
suas necessidades de transporte.”
A Vale, maior exportadora
mundial de minério de ferro, investiu R$ 4,8 bilhões em logística
nos últimos quatro anos. A empresa é dona das estradas de ferro
Carajás, Vitória-Minas e da concessionária Ferrovia
Centro-Atlântica, além de deter 10,37% de participação na MRS. Hoje,
além da própria produção, a Vale transporta por seus trilhos 18% da
soja exportada pelo País, segundo o diretor de comercialização de
logística da companhia, Mauro Dias.
Apesar dos investimentos da
Vale nas ferrovias, a Associação Nacional dos Usuários de Transporte
de Cargas (Anut) critica o interesse da companhia na compra da
Brasil Ferrovias, pela possibilidade de concentração excessiva do
transporte ferroviário nas mãos de uma única empresa. Há o temor de
que a proprietária da malha imponha preço de frete ao mercado ou
priorize suas próprias cargas, em detrimento de outros usuários –
argumento que também é válido no caso de a Bunge arrematar a
operadora. “A movimentação de cargas de terceiros em nossa malha
teve um aumento duas vezes e meia superior ao PIB desde 2001. A Vale
é, na verdade, uma grande indutora do crescimento do setor”, defende
Dias.
O diretor da Vale estima em
cerca de R$ 10 bilhões os investimentos necessários, ao longo dos
próximos quatro a cinco anos, para retirar os gargalos atuais da
malha ferroviária brasileira. “O governo deverá ser responsável por
30% do montante”, diz Dias. O professor Fleury, da UFRJ, ressalva
que algumas iniciativas precisam, necessariamente, partir da área
pública. “Um exemplo é a retirada de ocupações irregulares nas
proximidades das ferrovias, que limitam a velocidade das locomotivas
e prejudicam a eficiência do sistema”, explica.
Uma das obras mais
importantes para desafogar o sistema ferroviário na Região Sudeste,
o contorno ferroviário da cidade de São Paulo, deverá ser iniciada
ainda este ano, na forma de Parceria Público-Privada. Outros
projetos prestes a sair do papel são os das ferrovias Norte-Sul e
Transnordestina. Com essas iniciativas, segundo Cátia Morii, da
Lafis, o Brasil marcha para evoluir dos atuais 26% para 30% de
participação do sistema ferroviário na matriz de transportes. “Em
países desenvolvidos, mais de 40% das movimentações de cargas são
feitas por trem. Ainda falta muito, mas estamos caminhando”, diz a
consultora.
(© Carta Capital, edição 380,
15.02.2006)

(© Carta Capital, edição 380,
15.02.2006)

(© Carta Capital, edição 380,
15.02.2006)
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