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Roberto Castro |
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Pizzolato:
Ex-diretor de marketing do BB voltou ao centro da crise política
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"Gushiken mandou assinar"
Henrique Pizzolato, ex-diretor do BB, diz que pagamentos do
banco à DNA foram ordenados por ex-ministro
Por Ivan Martins
e Marco Damiani
Depois de seis meses de
crise política, a CPMI dos Correios propôs, na quinta-feira 10, que
Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, e Marcos Valério de Souza, o
dono das agências DNA e SMP&B, sejam indiciados por vários crimes,
incluindo corrupção ativa, evasão de divisas, sonegação fiscal e
formação de quadrilha. O próximo alvo dos parlamentares é o
ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Seu
nome voltou ao centro das investigações após a descoberta, uma
semana atrás, de que R$ 10 milhões do Banco do Brasil foram
desviados para o caixa dois do PT. O esquema funcionaria através da
Visanet, uma empresa de cartões de crédito, que possui um fundo
milionário para investimentos em propaganda. Segundo parlamentares,
Pizzolato teria autorizado o repasse antecipado de R$ 58,3 milhões à
DNA e parte desses recursos teria retornado ao caixa dois do PT.
Na semana passada,
Pizzolato decidiu desabafar e concedeu à DINHEIRO sua primeira
entrevista após a denúncia. Atribuiu a responsabilidade pela escolha
da DNA ao ex-presidente do BB, Cássio Casseb, ao ex-ministro da
Comunicação, Luiz Gushiken, e ainda a outros diretores do banco. “Se
existia algo montado para favorecer o PT, era em escalões
superiores, muito acima da diretoria de marketing”, disse ele.
Pizzolato relatou ainda que a ordem de assinar os repasses à DNA
partiu de Gushiken. “Ele disse: vai lá e assina”. Em meio a um drama
familiar, tendo de cuidar da saúde do pai, Pizzolato será ouvido
novamente pela CPMI. “Contra ele, há indícios de vários crimes”,
disse o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR). “O fato de terem mandato
fazer não o livra de culpa”. A seguir, os principais trechos da sua
entrevista.
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Roberto Castro |
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Luiz Gushiken:
Todas as campanhas eram decididas por ele |
DINHEIRO – A CPMI dos Correios concluiu que o Banco do
Brasil desviou R$ 10 milhões para o caixa dois do PT, usando verbas
da Visanet, e o senhor foi apontado como o responsável. Procede?
HENRIQUE PIZZOLATO – De forma alguma. Quando eu assumi a
diretoria de marketing do Banco do Brasil, no começo de 2003, essa
decisão fugia totalmente à minha alçada. Agora, quando eu vi essa
notícia nos jornais, meu mundo desabou mais uma vez.
DINHEIRO – Quem decidiu?
PIZZOLATO – O Banco do Brasil tinha três conselheiros na
Visanet. Na época, eram o ex-presidente Cássio Casseb, o
vice-presidente Edson Monteiro e o diretor Fernando Barbosa. Eles
decidiram contratar a DNA.
DINHEIRO – Os membros da CPI dizem que o senhor decidiu
antecipar os pagamentos, ou seja, antes da realização dos serviços.
PIZZOLATO – Isso não procede. Eu até estranhei aquilo.
Chegaram para mim com o documento pronto para assinar. Já tinha até
parecer de auditoria. Faltava o meu “de acordo”. E eles disseram que
os outros bancos sócios da Visanet também faziam assim.
DINHEIRO – O que o incomodava naquela operação?
PIZZOLATO – Assumi o cargo sabendo que eu tinha um
orçamento de marketing do Banco do Brasil. Mas não sabia que havia
um outro orçamento, indireto, com os recursos da Visanet. Eu então
sugeri a eles que colocassem aquilo no orçamento interno do banco.
DINHEIRO – Qual foi a resposta?
PIZZOLATO – Que isso iria criar problemas tributários.
Haveria incidência de CPMF e de muitos outros impostos. Por isso,
seria melhor transferir o dinheiro direto da Visanet para a agência
de publicidade.
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Ichiro Guerra |
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Cassio Casseb:
"Numa reunião com o Casseb, quase apanhei. Disseram que se o
dinheiro da Visanet entrasse no banco, seria tributado" |
DINHEIRO – Depois disso, o senhor então assinou o
primeiro repasse de R$ 35 milhões, feito em março de 2003?
PIZZOLATO – Não. Como no dia seguinte eu tinha uma reunião
na Secom [Secretaria de Comunicação] com o então ministro Luiz
Gushiken, decidi levar os papéis para estudar no hotel em que morava
e esperei para tomar a decisão no dia seguinte.
DINHEIRO – E o que o ministro Gushiken lhe disse?
PIZZOLATO – Ele mandou assinar.
DINHEIRO – A ordem foi dele?
PIZZOLATO – Todo o marketing das estatais passava pela
Secom. E eu não queria que o Gushiken pensasse que eu estivesse
decidindo sobre como aplicar uma verba que não estava no orçamento
oficial do Banco do Brasil. Existem outras coligadas, como a
Brasilprev, a Brasil Veículos e a Brasilcap, que também têm verbas
de publicidade. E tudo isso era decidido pela diretoria de varejo e
distribuição. Mas existia o entendimento, dentro da Secom, de que
tudo tinha de seguir uma mesma diretriz, definida por eles.
DINHEIRO – Exigência da Secom?
PIZZOLATO – O Gushiken uma vez me chamou e disse: “Poxa, o
diretor de varejo tem um orçamento de marketing tão grande quanto o
do banco ou maior”. E não eram recursos do Banco do Brasil, mas das
empresas coligadas. Só que toda campanha tinha que ser aprovada pela
Secom.
DINHEIRO – Na Visanet, como foi exatamente o
procedimento?
PIZZOLATO – O diretor Fernando Barbosa e o gerente Cláudio
Vasconcelos chegaram com a nota pronta e pediram o “de acordo”. Eles
disseram que tinha que liberar aquele dinheiro o quanto antes, como
os outros bancos privados. Com isso, eles poderiam transferir os
recursos da Visanet para a DNA. Mas eu mesmo nunca fiz nenhum
contato com a Visa. Nem sei onde era a empresa. Depois disso, fui à
Secom e na reunião estavam o Gushiken e o adjunto Marcus Flora. O
Gushiken, então, disse: “É mais dinheiro para você usar; você tem
que assinar”. Eu falei que não estava no orçamento. E ele respondeu:
“Tudo bem”.
DINHEIRO – Qual a data exata?
PIZZOLATO – Não me lembro. Mas foi no dia do documento [3
de março de 2003], porque assim que eu saí da Secom dei o “de
acordo”.
DINHEIRO – Depois, em 12 de maio de 2003, houve um
repasse de R$ 23,3 milhões para a DNA.
PIZZOLATO – Nos dois documentos, eu só dou o “de acordo”.
As notas técnicas e os pareceres vinham de fora. Depois a diretoria
de varejo voltava e dizia: “Olha Pizzolato, tem mais dinheiro lá na
Visanet”. Então decidi implantar um acompanhamento dos gastos para
saber o que era feito em televisão, rádio, revista e assim por
diante.
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André Dusek |
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Marcos Valério:
"Eu mal conhecia o Marcos Valério. só estive com ele no fim de
2003, muito depois desses repasses feitos para a DNA" |
DINHEIRO – O senhor deu o “de acordo” apenas para os
repasses que somam R$ 58,3 milhões?
PIZZOLATO – Não. Tem também umas notas menores. E eu
perguntei de novo porque o dinheiro tinha que ir direto para a
agência. Numa reunião com o Casseb eu quase apanhei. Disseram que se
o dinheiro entrasse no banco, na forma de dividendos da Visanet, ele
seria tributado. E eu então perguntei: por que a DNA?
DINHEIRO – O que responderam?
PIZZOLATO – Disseram que tinha um rodízio, era a vez da
DNA.
DINHEIRO – O sr. sustenta então que nem tomou a decisão
interna, no banco, nem a decisão externa, no governo, de repassar o
dinheiro para a DNA?
PIZZOLATO – Sim. O Gushiken disse: “Assine que é bom!”. E
todo mês a DNA me entregava uma planilha sobre as despesas, que era
muito imperfeita. No fim de 2003, a diretoria de varejo do banco até
me disse que era preciso gastar todo o dinheiro porque, se isso não
fosse feito, a verba seria perdida. Em 2004, quando a questão da
liberação antecipada voltou a ser discutida, eu passei a fazer uma
planilha minha, paralela. Cheguei até a notificar a DNA, exigindo
comprovação do gasto.
DINHEIRO – Eles comprovavam?
PIZZOLATO – Todo mês uma funcionária deles, chamada Regina,
me repassava os dados.
DINHEIRO – O sr. conheceu o publicitário Marcos Valério?
PIZZOLATO – Estive com ele uma vez, no fim de 2003, muito
depois desses repasses de R$ 58,3 milhões. Até então, eu não o
conhecia.
DINHEIRO – Houve uma auditoria do banco que constatou que
R$ 9 milhões não foram comprovados.
PIZZOLATO – O que me disseram foi diferente. Os auditores
me contaram que a DNA fez os trabalhos, mas falta o “de acordo” para
R$ 4 milhões. E tem uns R$ 2 milhões com divergências.
DINHEIRO – Não é estranho pagar antecipadamente?
PIZZOLATO – Eu nunca tinha visto isso. Eu dizia até que, ao
colocar o dinheiro na frente, a gente perdia o poder de barganha com
a agência. Mas me disseram que tinha de ser feito assim. Só em 2004,
começaram a pensar em mudar o sistema. E tem mais um erro da CPI. O
dinheiro que ia para a DNA não era gasto só por eles.
DINHEIRO – Como assim?
PIZZOLATO – Em 2004, a gente gastou muito dinheiro com
outras agências. Os dirigentes delas diziam: “Pô, o cara tá
demorando muito para me repassar o dinheiro”.
DINHEIRO – Quem, o Valério?
PIZZOLATO – Não, eu chamei o presidente da DNA [Francisco
Castilho] e falei para ele repassar o dinheiro para as outras
agências.
DINHEIRO – O dinheiro de outras agências passava pela
DNA?
PIZZOLATO – É, diziam que se fosse para outro lugar, a
gente pagaria pelo menos a CPMF.
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Anderson Schneider |
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Banco do Brasil:
"Se tinha algum esquema para desviar dinheiro do BB, a decisão
era tomada em escalões muito superiores ao meu " |
DINHEIRO – O banco estimulava a sonegação?
PIZZOLATO – Não, o que eles diziam é que aquele dinheiro da
Visanet não era uma receita, era uma despesa.
DINHEIRO – O senhor acha que foi induzido ao erro por
outros diretores do Banco do Brasil?
PIZZOLATO – Isso foi montado antes. E não era meu papel
controlar. O banco tem contabilidade, tem auditoria. Se o
adiantamento fosse uma coisa ruim, caberia aos nossos conselheiros
na Visanet dizer isso. Ou seja: o Cássio Casseb, o Édson Monteiro e
o Fernando Barbosa.
DINHEIRO – A CPMI também deverá indiciá-lo por corrupção.
Como o senhor reagirá?
PIZZOLATO – Olha, caiu o mundo na minha cabeça. Eu já tive
milhões de oportunidades fazer as coisas na linha da corrupção na
época em que fui da Previ. Mas eu sempre ralei a vida inteira. Eles
estão fazendo uma grande confusão e estão sendo precipitados. Eu não
fui o responsável e também não tinha como checar o dinheiro na conta
da DNA. Não sabia que o dinheiro passava por uma empresa daquele
Rogério Lanza Tolentino [sócio de Marcos Valério].
DINHEIRO – E nem sabia que o dinheiro voltava para o PT?
PIZZOLATO – Olha, se havia alguma coisa combinada, ninguém
me informou. Nunca ninguém me disse nada sobre isso. Se existia algo
montado, era em escalões superiores, muito acima da diretoria de
marketing.
DINHEIRO – O senhor foi usado?
PIZZOLATO – A primeira coisa que a Justiça tem que ver é
quem decidiu que seriam R$ 35 milhões. Eu não.
DINHEIRO – Quem foi?
PIZZOLATO – Os nossos conselheiros na Visanet. Se eles
sabiam de outras coisas, eu não sabia.
DINHEIRO – Gushiken saberia de que havia algo combinado
em torno de doações de campanha?
PIZZOLATO – Pode ser que sim. Mas pode ser que ele tenha
pensado que era mais dinheiro para o marketing.
DINHEIRO – O senhor começou a cair no episódio do
patrocínio do BB para um show de Zezé di Camargo e Luciano que
levantaria fundos para o PT. Foi fogo amigo?
PIZZOLATO – Eu nunca pensei nisso. Quando eu estava no
banco, eu só pensava em trabalhar. E, depois da vitória do Lula, eu
nem queria cargo nenhum. Pensava em criar um projeto de um banco
ecológico e o Casseb me chamou para o marketing.
DINHEIRO – Seu convite partiu do Casseb e não do PT?
PIZZOLATO – Ele me ligou. Se alguém falou com ele antes, eu
não sei.
DINHEIRO – Quando o escândalo da DNA surgiu, seu nome
apareceu como sacador de R$ 326 mil. Isso não o complica?
PIZZOLATO – Eu já expliquei isso. Me pediram para apanhar
uns documentos e eu não imaginava o que havia ali dentro. E passei
adiante.
DINHEIRO – Mas logo depois o senhor comprou um
apartamento e pagou parte em dinheiro vivo?
PIZZOLATO – Eu tenho recibo de tudo. Eu tinha quase R$ 500
mil numa aplicação no banco. No dia do contrato, era véspera de
Carnaval e a vendedora disse que queria receber o dinheiro à vista.
Para não baixar toda a aplicação, eu usei US$ 36 mil que eu tinha
comprado para fazer uma viagem ao exterior, após a aposentadoria.
Todos os comprovantes foram entregues à CPI. Essa foi a parte paga
em dinheiro. Não tem nada a ver com o tal pacote da DNA, que não
ficou comigo.
DINHEIRO – Foi então uma simples coincidência?
PIZZOLATO – Uma infeliz coincidência. Naquele ano, tive
rendimentos declarados de R$ 700 mil e tenho como comprovar a origem
de tudo. Sempre poupei investindo em imóveis. Está tudo no meu
imposto.
(©
ISTO É Dinheiro,
16.11.2005)
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