Fundos de pensão negam sofrer
ingerência política
Presidentes da Previ, Petros e Funcef descartam ligação com
escândalo do "mensalão"
LEONARDO SOUZA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Sérgio Rosa, Wagner
Pinheiro e Guilherme Lacerda presidem, respectivamente, Previ,
Petros e Funcef, os três maiores fundos de pensão do país. Ligados
ao PT, os três têm pelo menos outros dois pontos em comum: dirigem
fundações investigadas pelas CPIs dos Correios e do "Mensalão" e,
juntos, ganharam a briga contra o banqueiro Daniel Dantas
(Opportunity) pelo controle da empresa Brasil Telecom.
A Folha ouviu os três
sobre a briga com o Opportunity, a suposta ingerência do governo
federal nas decisões das fundações e as investigações das CPIs.
Os presidentes de Previ
(dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef
(Caixa Econômica Federal) têm opiniões semelhantes em praticamente
todos os aspectos mencionados: a motivação dos parlamentares da
oposição para investigar os fundos nas CPIs é política, eles
herdaram vários "esqueletos" dos administradores de fundos durante o
governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o
Opportunity cometeu várias irregularidades na gestão da Brasil
Telecom.
"Sempre existe um jogo
político, a oposição tentando desqualificar ou descaracterizar tudo
aquilo que é feito no governo atual. Mesmo a gente sabendo que
existe esse jogo político entre oposição e situação, acho que tem de
haver equilíbrio, objetividade, tem que ter honestidade na análise
dos dados", declarou Sérgio Rosa, em relação às investigações feitas
pelas CPIs.
Os integrantes das CPIs
desconfiam que os fundos de pensão possam ter repassado
irregularmente recursos para campanhas políticas. Juntamente com o
Citibank, os fundos de pensão conseguiram na Justiça destituir o
Opportunity do comando da Brasil Telecom. Há um mês, as fundações
indicaram nova administração para a tele.
Os três sustentam que as
gestões anteriores não foram boas: "Herdamos aqui uma "cova do
demônio". É muito esqueleto. Somos um dos fundos que mais têm
esqueletos", diz Lacerda.
Eles criticam a gestão do
Opportunity à frente da Brasil Telecom -"nunca recebemos dividendos
das empresas nem a valorização delas foi tão expressiva assim quanto
dizem", afirma Sérgio Rosa- e mencionam a existência de indícios de
irregularidades na empresa, os fundos citam a formação do consórcio
Voa, pelo qual executivos da Brasil Telecom e do Opportunity
compartilhariam a utilização de aeronaves.
"A Brasil Telecom tem 67%
de participação no consórcio. O Opportunity, 3%, mas os aviões nunca
foram usados pelos executivos da Brasil Telecom. As aeronaves ficam
à disposição do Opportunity", diz Wagner Pinheiro.
Guilherme Lacerda menciona
gastos excessivos da gestão passada da empresa. Como exemplo, cita
despesas com publicidade. A CPI dos Correios suspeita que a Brasil
Telecom tenha contribuído com o esquema de caixa dois do PT, operado
por Marcos Valério. As agências de propaganda de Valério (SMPB e
DNA) atendiam a Brasil Telecom. Leia abaixo as declarações dos três.
CPI
Wagner Pinheiro: "A quebra do sigilo amplo
[bancário, fiscal e telefônico dos fundos de pensão a pedido das
CPIs], com base em insinuações, me leva a entender que não foi por
razão técnica. O motivo mais óbvio para todos é o interesse
político. A Petros nada tem a temer e está à disposição da CPI para
o esclarecimento de todos os fatos que os parlamentares julgarem
pertinentes. A gente fica surpreso quando se quebra o sigilo amplo
de instituições baseados em suposições genéricas".
Sérgio Rosa: "Nossa visão é que não existiu, até
agora, nenhum fato determinado [que justificasse a investigação dos
três grandes fundos]. Nós apresentamos todas as informações que nos
foram solicitadas. De forma muito pesada, foram veiculadas suspeitas
de que haveria prejuízos em operações com corretoras. Demonstramos
que essas operações foram absolutamente normais. Tudo que podíamos
fazer para esclarecer, para colaborar da melhor maneira possível,
nós fizemos.
Realmente ficamos sem compreender por que essa insistência em
colocar os fundos de pensão no foco das investigações com esse nível
de profundidade, com quebra de sigilo, sem que tenha, até o momento,
aparecido um fato objetivo. Esse posicionamento da CPI nos
surpreende, nos deixa preocupados e até chateados.
Sempre existe um jogo político, a oposição tentando desqualificar ou
descaracterizar tudo aquilo que é feito no governo atual. Mesmo a
gente sabendo que existe esse jogo político entre posição e
situação, acho que tem de haver equilíbrio, objetividade e
honestidade na análise dos dados".
Guilherme Lacerda: "[A motivação] é política. Num
primeiro momento, eu admito que houvesse uma suspeita em relação aos
fundos de pensão. No entanto, depois de todas as informações dadas,
todos os esclarecimentos sendo feitos e, ainda assim, [as CPIs]
continuarem no mesmo padrão, eu não vejo outra razão que não
política. Muitos levantaram as suspeitas de que o aconteceu no
passado continuaria acontecendo até agora. Nós temos indícios fortes
de que foram feitos maus negócios no passado, o que não se repetiu
na nossa gestão".
OPPORTUNITY
Nos bastidores, Daniel Dantas argumenta que a Brasil Telecom era bem
administrada e extremamente rentável para os fundos de pensão. Dizia
não saber, portanto, o real interesse dos fundos em assumir o
controle das teles.
Pinheiro: "Não é verdade que a gente viesse tendo
uma gestão adequada dos nossos recursos. Dou dois exemplos, o
primeiro no campo operacional. O gestor [Opportunity] criou o
consórcio Voa, que são três aeronaves. Apesar de a Brasil Telecom
ter 67% do consórcio, os executivos da empresa nunca usaram essas
aeronaves. A empresa gasta milhões por ano com a manutenção desse
consórcio, no qual o Opportunity tem apenas 3% e faz uso dessas
aeronaves do jeito que bem entende.
Acredito que, dentro de algumas semanas, a nova direção da Brasil
Telecom deve divulgar os resultados de uma série de auditorias. Esse
exemplo é gritante. Certamente, com as auditorias, teremos outros.
Com o fim das auditorias, teremos condições de avaliar se eles
efetivamente são bons administradores ou não".
Rosa: "Primeiro, não existia essa percepção de alta
rentabilidade da gestão [Opportunity]. Nunca recebemos dividendos
das empresas nem a valorização delas foi tão expressiva assim quanto
eles dizem. Além disso, nosso posicionamento foi olhar o nosso
investimento, que estava desprotegido e visivelmente sem valor de
venda".
Lacerda: "Não há um indicador que diga que a gestão
foi boa, não há nada que prove isso. Os investidores [entre os
quais, as fundações] entraram com a segurança de que iriam atuar e
não atuaram, com a garantia de que poderiam sair conjuntamente e não
saíram. Ao longo do processo, ocorreram várias decisões de
investimento em que os investidores não foram consultados. Por que é
bom? Pode ter sido bom para o gestor, para o investidor não foi bom.
[Foram identificados] pagamentos volumosos para advogados, altos
gastos com publicidade, contratações em que nem sempre se indica que
foram feitas no interesse da empresa [...]. É preciso verificar se
realmente essas publicidades foram feitas dentro de programas que
agregaram valor para a empresa, se foram ou não vinculadas a
programas efetivos e se agregaram valor à empresa".
INGERÊNCIA POLÍTICA
Devido à ligação com o PT, os dirigentes dos três fundos têm sido
acusados de aceitar ingerência do governo em suas decisões. O
deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), ex-ministro das
Comunicações, disse à Folha, no mês passado, que foi procurado pelos
presidentes das fundações para que interferisse na briga com o banco
Opportunity.
Pinheiro: "Na nossa gestão, não recebemos quaisquer
pedidos, solicitações e muito menos imposições para que fizéssemos
investimentos em qualquer setor".
Rosa: "O governo sempre entendeu essa separação do
papel dos fundos de pensão, que precisam ter uma autonomia de gestão
[...]. Estivemos com o ex-ministro Miro Teixeira duas vezes para
esclarecê-lo e tranqüilizá-lo de que o objetivo sempre foi proteger
o investimento e seguir as regras de legislação. Em nenhum momento
solicitamos intervenção".
Lacerda: "De 2003 para cá, não houve [interferência
do governo]. Estamos criando, organizando fundos de investimento
para setores específicos, como infra-estrutura, energia. Procuramos
o governo para debater esses temas".
HERANÇA
Pinheiro: "Passamos a administração de
investimentos em renda variável [Bolsa de Valores] para o banco
Opportunity em 1998, o que nos deu prejuízos que até hoje não
conseguimos recuperar".
Rosa: "Tivemos, no passado, investimentos que deram
prejuízo. Alguns deles foram feitos sem uma análise técnica mais
consistente, mas não podemos identificar nenhum terceiro que tenha
se beneficiado disso. Havia fragilidade nos estudos técnicos, mas
não podemos dizer que isso foi em benefício de qualquer outra pessoa
física ou jurídica. No caso do Magic Park [no interior de São
Paulo], investimos cerca de R$ 40 milhões. A perda foi quase total.
É ruim querer partidarizar a discussão, achar que uma administração
sob a égide desse ou daquele governo pode ser ruim ou boa.
Deveríamos avaliar resultados concretos. Desde que estamos na gestão
da Previ, os resultados têm sido positivos. Se formos comparar esses
resultados com os do passado, a gestão melhorou em transparência,
rentabilidade e política de controle".
Lacerda: "Estou lendo "Anjos e Demônios" [do
escritor Dan Brown]. Nós herdamos aqui uma "cova do demônio" em
termos de esqueletos. É muito esqueleto. Somos um dos fundos que
mais têm esqueletos. Temos mais de 30 operações com processos na CVM
[Comissão de Valores Mobiliários], na Polícia Federal, no Ministério
Público".
(© Folha de S. Paulo,
06.11.2005)
ESCÂNDALO DO "MENSALÃO"/
FUNDOS DE PENSÃO
Ex-secretário do PT e ex-assessor de Dirceu indicou investimentos
para a Nucleos, fundação de empregados das estatais de energia
nuclear
Sereno tentou influenciar fundo de estatal
LEONARDO SOUZA
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO
Documento obtido pela
Folha comprova que o ex-secretário de Comunicação do PT e
ex-assessor de José Dirceu na Casa Civil, Marcelo Sereno, exercia
influência na Nucleos, fundação de previdência dos empregados das
estatais de energia nuclear.
A Nucleos consta da lista
dos fundos de pensão que tiveram os sigilos fiscal, bancário e
telefônico quebrados pela CPI dos Correios, por suspeitas de terem
sido usados como fontes de recursos do esquema do "mensalão".
Em julho deste ano, a
Folha publicou reportagem na qual o petista Neildo de Souza
Jorge, um dos três representantes dos empregados no Conselho
Deliberativo da Nucleos, acusou Sereno de manipular o fundo para
desviar dinheiro para o PT, o que o ex-secretário de Comunicação
nega.
Uma ligação de Sereno, em
outubro de 2004, para o então diretor financeiro da Nucleos,
Gildásio Amado Filho, confirma que ele tinha alguma ingerência nas
escolhas de investimento da fundação. Sereno pediu para que Gildásio
telefonasse para o representante da ASM Asset Management Fernando de
Barros Teixeira.
A demanda de Sereno foi
anotada por uma das secretárias da Nucleos. "Gildásio, ligar para o
senhor Fernando de Barros Teixeira, da ASM, a pedido de M. Sereno",
escreveu a secretária em bilhete que foi anexado ao prospecto de um
fundo de direitos creditórios (baseados em dívidas imobiliárias) da
ASM, uma gestora de recursos de terceiros.
"Informando nossa
impossibilidade em out/04", escreveu Gildásio no próprio bilhete,
assinado e carimbado. A reportagem pôde consultar o original.
O presidente da Nucleos na
época, Paulo Figueiredo, a quem Gildásio estava subordinado,
confirmou à Folha a história contida no bilhete. Figueiredo
acrescentou que, dias após a ligação de Sereno, Fernando de Barros
Teixeira foi recebido em reunião na sede da Nucleos, no Centro do
Rio, da qual participaram ele próprio e Gildásio. Na ocasião, o
representante da ASM ofereceu à fundação investimentos no fundo de
direitos creditórios cujo prospecto Gildásio havia recebido.
Neildo de Souza Jorge
afirma que Figueiredo foi alçado ao cargo de presidente da fundação
por indicação de Sereno. Gildásio também seria escolha do petista.
"O Marcelo Sereno não
indicou, ele pediu. Eu soube desse bilhete depois. Ele ligou e pediu
para atender a ASM [...]. Muita gente fala que eu fui indicação
dele. Eu não fui indicação dele, não há documento que comprove
isso", afirmou Figueiredo.
O presidente da Nucleos
contou ainda que o prefeito de Paracambi (município da Baixada
Fluminense), o petista André Ceciliano, também pediu para que a ASM
fosse atendida pela Nucleos.
"O que acontece é o
seguinte: houve esse pedido para atender. Se eu não me engano, o
prefeito de Paracambi tinha solicitado para atender o Fernando
Teixeira. Ele foi lá, como ASM, da mesma forma que a gente recebeu
outros [representantes de empresas]."
Questionado que interesses
Sereno teria para indicar uma gestora de recursos, Figueiredo
respondeu: "Eu não sei se ele indicou ou conversou. Talvez... Tem
gente no PT que tem ligação com corretora, né? Como em qualquer
lugar [...] São empresas idôneas e aí vão lá e apresentam suas
demandas. Entendeu?".
Figueiredo ressaltou que o
telefonema de Sereno foi para Gildásio. Afirmou que Sereno nunca o
procurou. O ex-presidente da Nucleos disse ter ouvido falar que a
família do prefeito de Paracambi tem corretoras de valores. "Isso é
comentário. A família dele tem ligações no mercado, ele é um cara
rico, de berço."
Segundo Figueiredo, a
Nucleos só não aplicou no fundo da ASM porque os papéis da carteira
eram lastreados em TR (Taxa Referencial), investimento que não é
permitido pelas regras da fundação.
Em 2004, na gestão de
Paulo Figueiredo e de Gildásio, a Nucleos obteve um dos menores
rendimentos entre todos os fundos de pensão. No ano passado a
rentabilidade da fundação foi de 5,7%, contra média no setor de 17%.
Figueiredo deixou a Nucleos em abril deste ano.
(© Folha de S. Paulo,
06.11.2005)
Ex-diretor financeiro da Nucleos diz que
petista não lhe fez pedidos
DO ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Apesar de o ex-presidente
da Nucleos Paulo Figueiredo ter confirmado o conteúdo do bilhete
obtido pela Folha, o ex-diretor financeiro da fundação
Gildásio Amado Filho negou que tivesse recebido pedido do
ex-secretário de Comunicação do PT Marcelo Sereno. "Não é verdade,
Marcelo Sereno nunca me fez pedido, eu não conheço essa figura para
dar telefonema dessa forma."
Gildásio não esperou a
reportagem lhe informar o conteúdo do bilhete. "Você não vai me
falar, não, porque eu não vou escutar", disse. "Nunca assinei [o
bilhete], não sei do que se trata nem tenho curiosidade de saber."
Por meio de sua
assessoria, Marcelo Sereno disse desconhecer totalmente o assunto. A
assessoria do prefeito de Paracambi, André Ceciliano, a mesma de
Sereno, informou que o prefeito nunca fez pedidos à Nucleos.
Procurada pela Folha,
a atual diretoria da Nucleos informou que a diretoria da qual
Gildásio fez parte foi inteiramente exonerada pelo atual Conselho
Deliberativo.
Acrescentou que a nova
diretoria, ao tomar posse, demitiu toda a área de investimentos que
vinha da gestão anterior e que tomou a providência de contratar
auditorias externas para apurar possíveis irregularidades.
Paulo Figueiredo disse que
move dois processos contra Neildo de Souza Jorge (membro do Conselho
Deliberativo que o acusou de ser apadrinhado de Sereno) e que isso
explicaria as denúncias feitas por seu desafeto. Figueiredo disse
ainda que o resultado ruim da Nucleos no ano passado se deveu, em
parte, a dívidas que as patrocinadoras têm com o fundo.
(© Folha de S. Paulo,
06.11.2005)
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